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Expressão

Luca era um bom descobridor de talentos sempre se autodefiniu assim.
Tinha agenciado alguns bons aspirantes a arte da pintura ao longo dos anos que lhe propiciaram uma vida relativamente estável.

Afinal de contas ele os tinha descoberto

Essa era a grande sacada que ninguém ainda tinha tido: Um agenciador de pintores.
Tinha descendência italiana, ou seja, havia arte nas veias dele.
Era da terra de Portinari e Michelangelo. Podia se gabar disso, mas ultimamente a maré não estava muito boa. Vinha sendo cobrado por algo novo, algo que fosse tão expressivo como o surrealismo e que também fosse tão popular como a pop art.

Seus artistas haviam se tornado óbvios


A crítica especializada e as pessoas que passavam pelas galerias não se surpreendiam mais com os seus recém descobertos e tudo parecia estar caminhando para uma decepcionante aposentadoria.
“Você não pode aceitar que termine assim” era o que ele dizia a si mesmo todos os dias.
Enfim resolveu tentar mais uma vez... Uma última tentativa para o precursor daquele nicho de mercado.
Saiu de são Paulo e viajou para o Rio em busca de algo novo.
Hospedou-se num Hotel e todo dia perambulava pela cidade na busca de algo que chama-se atenção vendo assim algumas coisas interessantes. Artistas de rua, pintores de fundo de quintal (com bons trabalhos) e hippies da Lapa com um considerável senso artístico, mas que não tinham nada de especial. faltava alguma coisa.

Algo que ele não sábia o que era...

No terceiro dia junto aos cariocas foi procurar um ambiente mais jovem e começou a rodar por Universidades e faculdades quando presenciou algo que o intrigou.
A garota sentada numa bancada tinha a primeira forma de arte que realmente o chamou atenção depois de muito tempo. Ela tinha nas unhas pinturas grafadas com esmalte milimetricamente feitas.
Saiu do carro.
Apresentou-se e como sempre causou aquele receio que só é sanado com a mostra do naipe dos artistas que já eram agenciados.

-Bom, eu acho que você esta falando a verdade.
-Claro que sim. Então, o que é isso que você desenhou nas unhas?
-Uma referencia ao clube de futebol para que torço.
-Os detalhes são impressionantes.
-Eu só não entendi como isso pode virar arte. Você é louco?
-Só faça o que eu disser.

Em três meses eles abriram a primeira exposição que foi altamente prestigiada, a partir da primeira semana, devido às críticas extremamente positivas.
Uma conceituada revista publicou um artigo que dizia: “É a definição perfeita de como o eu se expressa a partir de uma vida proletariadamente cotidiana que o sistema capitalista impôs as classes mais baixas de um país”.
Havia achado a sua artista.
Uma garota apaixonante, jovem e bonita que tinha tudo para se dar bem alavancando mais uma vez a sua carreira.
Quem diria que algo tão simples fosse se sobrepor aos renomados artistas que Luca tinha em seu leque de opções.
Pensou consigo mesmo: “... é Luca... às vezes a beleza mais apaixonante pode estar nos gestos mais simples como o cheiro de um cabelo, o sorriso de uma garota ou algumas simples figuras nas unhas”.

Contradições














-Não entendi?
-Ah... Como eu vou explicar isso a você...

O pai não sabia como explicar ao filho algo tão subjetivo. O que seria mais contraditório do que a vida na cidade que impõe leis para manter a liberdade?
Tentou pensar nas possíveis respostas.
Ele poderia culpar a boa e velha ganância humana, que ao longo dos anos foi jogada na cara de cada ser humano como errada, suja e desleal, poderia dizer que a culpa é dos nossos políticos, que nunca vão nos dar uma educação descente por que ela geraria consciência social e a consequente saída dos próprios do governo, acabando com anos de corrupção, ou... Simplesmente mais uma vez dizer as palavras mágicas: É... O Capitalismo é uma m...
Achou que por a culpa no capitalismo era a melhor opção.

Tudo é culpa do consumo!

Mas... E se sentenciar o sistema vigente gerasse mais perguntas?
O garoto é inteligente. Vai que ele desembesta a chamar o Papai Noel de capitalista safado e começa a compará-lo com o Bush até chegar ao ápice de plagiar o Capitão Nascimento mandando ele tirar aquela roupa vermelha (Comunismo) por que ele é moleque.

Vai arriscar?


Isso é algo que não vou pagar pra ver...

-Então pai.
-Então o que?
-Me responda.
-Ahh vai perguntar pra sua mãe que ela sabe.
-Não sabe não.
-Vamos comprar um chocolate na esquina?!
-Vamos!

E eu ainda tenho coragem de criticar o consumo... Sempre me salvando de boas...

De papo na praça














O dia estava lindo.

Era um daqueles em que, após dar uma rápida olhada para o céu, você diz: A praia deve estar ótima agora...

Atravessamos a rua de mãos dadas para chegar à praça e sentar em um dos bancos

Era estranho saber que, durante toda a minha vida, sempre que eu atravessei a rua perto de casa tive de dar as mãos para Renata.
Desde os seus dez anos, quando presenciou o seu irmão menor sendo atropelado, Renata tinha um cuidado triplicado quando ia mudar de calçada.

Sentamo-nos

Como de costume abri minha lata de cerveja na mesa enquanto ela saboreava uma pipoca doce recém adquirida.

-A cerveja esta gelada João?
-Não tanto quanto eu gostaria, mas da pro gasto.
-Eu brindo a isso... (levantou a pipoca com um gesto de brinde)
-Ok... (fiz o mesmo)

Começamos a conversar e ela mais uma vez, como maior conhecedora, começou a me questionar sobre a vida que eu levava.
Há muito tempo Renata dizia que estava na hora de eu crescer e parar de usar as roupas de sempre, dizia que eu deveria arrumar um emprego de verdade e finalmente me portar como gente grande.

-Você não acha que estou certa?
-Acho que ainda sou jovem e essa é a hora de arriscar.
-Você não tem mais dezesseis anos sabia?
-Uhun.
-E acha que é legal ficar bêbado todo final de semana?
-Veja como um hobbie.

Levantei o copo para mais um brinde, porém não fui correspondido

-Continuo achando uma babaquice.
-Não fala assim.
-Pelo menos você vai viajar e não precisarei mais ajudar o bebum aí a mentir para a própria mãe toda vez que chapa.
-Ahh temos boas histórias vai...
-É verdade.
-Essa merece um brinde?

Tim tim


-João?
-Oi
-Promete que vai voltar trazendo dólares e um amigo gringo bem bonito pra mim um dia?
-Pode deixar.

Renata e eu temos essa amizade há tanto tempo que nem lembro mais quando a conheci e apesar de ela ter uma beleza totalmente destacável nunca a cantei uma vez sequer.
Ela é a garota mais ranzinza do mundo, mas sempre soube apoiar as minhas maiores maluquices.

Acho que é por isso que sempre fomos amigos

Vida dura

Desde muito pequeno fui educado de uma maneira franca e direta. Eu precisava ter autonomia sobre minha própria vida o mais rápido possível.
Na minha cidade todos trabalhavam em torno da construção de suas moradias e da felicidade em comum. O bem da maioria há muito tinha se sobreposto ao individualismo tão característico de tempos atrás.

Tempos esses tão distantes que não eram nem mais lembrados.

Hoje como, moradores da cidade, não temos mais que nos preocupar com os nossos semelhantes e sim com as criaturas amedrontadoras que ameaçam não só as nossas moradias mais também as vidas de todos os que nos são queridos.
As coisas gigantes sempre passam apressadas e já notamos que preferem nos matar ou destruir nossas moradias quando estão em grupo.
Meu falecido pai dizia que talvez as “horrendas coisas” fossem, no final das contas, tão covardes que só conseguiam atacar juntas.
Ele morreu num ataque de fúria de uma delas quando o bizarro ser se inflou e disparou uma ventania que destruiu metade de minha cidade.
Já esperávamos a dizimação quando uma das outras coisas chamou o nosso algoz com um urro que o fez virar e deixar de lado a sua brincadeira doentia.
Mudamos de lugar e reconstruímos nosso lar do zero.
Meu filho nasceu há algum tempo e faço questão de ensinar-lhe tudo o que sei sempre pedindo para ter muito cuidado com os horrendos seres que nos cercam.

-E se eles resolverem acabar conosco dessa vez pai?
- Temos que aprender a conviver com eles, pois são donos desse mundo pelo seu tamanho e força...
-Isso não é justo!
-Muitas coisas não são justas nesse mundo.
-E então. Esperamos até o próximo ataque aqui sentados?!
-É meu filho, vida de formiga não é fácil...

Silversun






O Silversun não estava tão divertido naquele dia... Quer dizer, não para mim. O bar estava lotado como sempre, mas a banda, que tocava alucinadamente no palco, parecia meio chata e até os bêbados já estavam naquele estado de começo de depressão.
Olho para o celular e não vejo nenhuma luz piscando.

Bom, não posso mais esperar ligações de madrugada...

-O que você tem? Parece meio triste...
-Não, que isso. Estou muito feliz por estar aqui com você.
-Sei lá. É que você esta meio... Frio...
-Nada. Uma leve crise existencial... Vou beber pra melhorar... Desce uma! Rs
-Ah ta... Rs

Essa ai nem deve saber o que é uma crise existencial

Vou ao banheiro e antes de entrar dou uma olhada para a fila da entrada feminina.

Gigante como sempre

Para no mictório e fico brincando de acertar a pedra de gelo enquanto os outros biombos ao meu lado vão sendo ocupados pelos mais diversos tipos de caras.

No último tinha um com o maior moicano que eu já tinha visto

O Silversun tinha o lavatório mais estranho do mundo... Balões com formato de ovelhas ficavam pendurados no teto. Quando os ventiladores do local sopravam, as ovelhas se batiam umas nas outras.

Malditas ovelhas... Nunca gostei delas...

-Então a fila do banheiro feminino estava grande?
-Como sempre...
-Pelo menos nisso os homens tem sorte. É só abrir a calça e urinar. Rs
-Sem duvida. RS. Vamos sair daqui?
-Pra onde?!
-Não sei.
-Você tem carro por acaso? Estamos a pé, e essa hora pra ônibus no Rio...
-Confia em mim?

Ela não respondeu, mas eu sabia que não... E isso, na verdade, não importava...

Quem eu quero que confie em mim confia... Mas... E ai... Ponto.

Puxei-a pelo braço e fomos andando até a calçada.
Fiz sinal para o primeiro taxi e ele não parou. Ela me deu um beijo no rosto foi, quase, para o meio da rua e parou um só em olhar para o motorista que perguntou quando nos sentamos:

-Pra onde rapaz?
-Vamos para a praia.
-Ok.

Ela me olhou já se preparando pra perguntar o que íamos fazer na praia de madrugada com algumas cervejas na mão, mas eu não dei oportunidade beijando-a primeiro.
Quando chegamos paguei o motorista e fomos andando na direção da escuridão onde estava a areia.
Sentamos e fiquei olhando para o céu estrelado com a minha cerveja de um lado e ela do outro me abraçando enquanto conversávamos sobre as maiores besteiras...

-E então?
-E então o que?
-Nós viemos aqui conversar?
-Por que... O que você esperava?
-Algo mais intenso.
-Algo mais intenso do que eu sinto no momento é difícil...
-Não entendi...
-Exato... Acho que eu entendi... E entender é uma m...

Umas duas horas depois ela fez de novo o seu truque da madrugada e pegamos mais um táxi que nos levou para casa.
No dia seguinte, antes de pegar o avião e viajar de volta, ela me ligou, uma última vez, para desejar boa sorte e dizer até a próxima.

Essa foi boa idiota...

Luau





Jordan gostou de muitas poucas coisas durante a sua intensa vida.
Aos dois anos ficou órfão, aos cinco foi para um orfanato, aos dez conheceu um garoto, com quem começou a dividir um beliche, que lhe ensinou a surfar e aos dezoito ganhou um campeonato na praia de Copacabana, que lhe deu notoriedade no surf, quando estava prestes a perder a sua moradia por chegar à maioridade.
Começou a ser patrocinado e a ganhar alguns pequenos campeonatos até reunir dinheiro suficiente para fazer uma viagem pelo mundo, atrás das suas tão sonhadas ondas perfeitas.
Tudo aconteceu inesperadamente na sua juventude e ele não escondia as marcas psicológicas que tais fatos haviam deixado em sua personalidade.
Confiava em pouquíssimas pessoas. Um grupo seletíssimo do qual o seu parceiro Léo, o garoto que lhe ensinou a surfar no orfanato, fazia parte.
Léo dirigia o Jet-Ski que puxava Jordan pelo mar, até atingir velocidade suficiente, para alcançar as ondas, de vinte metros ou mais, pelos quatro cantos do mundo.
Austrália, Hawai, África do Sul e Tahiti eram países por onde os dois garotos haviam passado recentemente e ganhado torneios de ondas gigantes.

-Hoje foi um bom dia ein Jordan.
-Foi sim. As ondas estavam ótimas.
-Amanhã voltamos para descansar um pouco e depois continuar as viagens.
-Voltamos pra onde?
-Pro Brasil oras.
-Temos mesmo?
-Sim. E não vamos discutir isso de novo.

No dia seguinte os dois pegaram o avião e depois de uma viagem de sete horas chegaram ao Aeroporto Internacional do Galeão no Rio de Janeiro.
Léo desceu do avião junto com Jordan.
Ambos estavam esperando, além de uma calorosa recepção da imprensa brasileira, um encontro com os amigos que não viam há mais de um ano.
Repórteres cercaram Jordan logo na saída, mas Léo não deixou fazerem muitas perguntas com o argumento de que o surfista estaria cansado e daria uma coletiva no dia seguinte.
A dupla foi direto para o hotel se arrumar para o luau de boas vindas à noite organizado pelos amigos...

No luau...


Os campeões são recebidos calorosamente pelos que já estavam na festa e se sentam numa mesa perto da fogueira e da banda que já tocava.
Léo pega uma cerveja e começa a conversar com velhos amigos que estavam por lá.
Jordan olha para a areia onde muitos estavam dançando e passa para a escada de madeira do quiosque quando de repente seu olhar e corpo ficam imóveis.
Ela era a garota mais linda que ele já havia visto na vida.
Segurava uma cuba libre e posicionava-se com os cotovelos apoiados no degrau mais alto jogando a sua cabeça para trás. Os cachos do cabelo cheio se rendiam a gravidade enquanto alguns ainda ficavam presos ao seu rosto... Pensativo... A olhar o céu.
Jordan pensou em ir lá e falar com ela, mas não atrapalharia tal momento. Ela parecia estar tão compenetrada no que estava pensando que provavelmente ia achar uma solução para o que a afligia.
O mesmo Jah que havia lhe dado tantas ondas perfeitas durante o seu último ano não ia deixa-lá na mão, não ela... Não a garota mais bonita que já segurou uma cuba libre.

Oren Lavie - Her morning elegance (Tradução)

"... Logo desce as escadas
Sua elegância matutina. Ela usa
O som da água faz seu sonho
Despertado por uma nuvem de vapor
Ela derrama um sonho em um copo
Uma colher de açúcar adoça-o ..."

A curva













-Você não pode me culpar por isso!
-Nunca culpei você de nada!
-Não precisa dizer, eu sinto...
-Grande... Agora és sensitiva.
-Você esta ouvindo o jeito que esta falando comigo?!

Jornalista e grande cinegrafista Téo sempre ouvia as reclamações de sua esposa que nunca aceitou as constantes saídas, em reuniões familiares e nos jogos de futebol do filho, para gravar alguma matéria na rua.
Sempre que o celular tocava num fim de semana, e o nome do Editor aparecia na tela, um prenuncio de discussão pairava no ar quando Aline, sua esposa, o olhava.
“Você vive nessa ponte aérea louca Téo” e “Eu não sei até quando vou aturar isso” eram frases proferidas frequentemente e incisivamente nas discussões.

-Eu sei que o trabalho é sua vida.
-Não. Minha vida são vocês, mas também amo meu trabalho e precisamos dele.
-Então por que você tem aquela pasta no seu Laptop com umas 10 fotos da sua garota da faculdade!?
-Por favor, Aline... Esqueça isso... Eu tenho que ir gravar...
-Eu não sou a garota que você amou e nunca vou ser!
-Nunca pedi que fosse!
-Então o que há? Me diga?!
-Não há nada, e é você que sempre puxa esse assunto...
-Ah ta... Desculpe por ser sua esposa então!
-Tchau

Naquele dia Téo entrou na garagem, pegou sua moto, colocou o capacete e foi dar uma volta antes de ir para o trabalho.
Entrou numa famosa avenida de São Paulo e acelerou.
Ele acelerou mais rápido do que jamais tinha acelerado... Ouviu certa vez que a 250 km era impossível fazer aquela curva... Resolveu tentar:

100 km


Hoje meu filho fez um belo gol... Ele realmente é bom, talvez um dia seja jogador de futebol... Talvez um dia...

150 km


Será que a Aline realmente estava certa? Por que você ainda tem aquelas fotos no seu Laptop Téo?!

200 km

Onde será que ela esta hoje e o que estará fazendo... Acho que nunca vou saber...

250 km

Vamos ver se é verdade...

Depois de um minuto sem pensar em mais nada Téo parou no acostamento... Olhou para trás... Viu a curva onde tinha passado mais rápido do que qualquer outro ser humano.
Sentou no asfalto colocou o capacete entre as pernas e pensou naqueles segundos na curva e no minuto que precedeu o feito...

Há quanto tempo a sua mente não ficava totalmente limpa ein Téo?


Ele ainda olhava para as estrelas no céu escuro quando o seu celular tocou e seu editor o avisou mais uma vez do horário e do local onde ele iria gravar.
Téo concordou.
Subiu na moto e a ligou.
Colocou seu capacete abriu a viseira e assentiu para a curva antes de acelerar para o trabalho sob a aprovação da estrada.

" ... O céu azul quando a noite for embora
E a gente vai queimar os pés no asfalto
Enquanto o céu azul
Nos tornar mais velhos outro dia mais
E assim eu vou, assim a gente vai
Até o final, até a parede mais próxima
Pra nos fudermos ou derrubá-la!"


Zander - Outro dia mais

Chocolate, óculos e direito




Quantos livros um escritor precisa para começar uma carreira internacional?
Segundo o agente de Felipe ele teve um bom inicio com o primeiro livro que quebrou, a quase intransponível, barreira dos 50 mil exemplares vendidos no Brasil.

-Para um iniciante, no nosso país, isso é fenomenal.
-Sério?
-É. Se você escrever um bom segundo livro consigo lançar ele em Portugal e quem sabe também consigo algumas traduções em espanhol para a América do Sul.
-Isso seria ótimo.
-Claro que sim. Então do que você precisa?

Felipe não sabia do que precisava.
Desde o lançamento do seu primeiro livro vinha passando por um extenso bloqueio criativo e não conseguiu escrever uma página sequer desde então. Assim, ele pediu uma viagem para um lugar inusitado e que ninguém mais o perturbasse por algum tempo.
O agente ligou no dia seguinte dizendo que uma viagem para Pernambuco, no nordeste do Brasil, estava agendada e que se ele quisesse, para disfarçar, tinha até conseguido um emprego temporário num escritório de advocacia já que ele era formado.
O escritor não pensou duas vezes e arrumou as malas para a sua “nova-temporária” vida.
Depois de estar devidamente instalado numa pequena casa, que o agente havia lhe conseguido, Felipe colocou um bom terno e foi fazer uma caminhada de dez minutos até o escritório onde trabalharia nas próximas semanas.
Ao andar pelas ruas de Olinda Felipe pode ver como as pessoas lá eram estranhamente felizes. Uns velhos, no auge dos seus 60 anos, andavam em bicicletas rindo a toa ao vender os seus doces, as senhoras sentadas na varanda de casa jogavam conversa fora e todo aquele clima litorâneo parecia estranhamente entorpecente.
O nome do escritório de advocacia era Rubens & Jonas, pois os dois irmãos, amigos de seu agente como ele descobriria depois, tinham fundado a sala de espaço considerável no centro de Olinda.

Algum tempo depois...

O trabalho na Rubens & Jonas e o clima ameno de outono em Olinda estavam ajudando e Felipe realmente voltará a escrever.

-Alô Felipe!
-Alô, quem é?!
-O seu agente oras...
-Ah... Ei, realmente esta dando certo. Estou conseguindo escrever...
-Isso é bom cara, isso é muito bom.
-É sim... Fiquei amigo da nova estagiária lá no escritório e ela...
-Desculpe cara, tenho que desligar. Pode deixar que amanhã ligo pra você. Grande abraço e não largue esse pedaço de papel e esse lápis ein... haha

Felipe não conseguiu contar naquele dia onde estava a sua maior fonte de inspiração em Pernambuco.
Tácia era a estagiária do escritório, e ele sempre achava engraçado vê-la toda enrolada, atrás das pilhas de processos a serem organizadas, com seus óculos que por algum motivo tinham uma cor verde estranha.
Tácia dizia-se Pernambucana até o último fio de cabelo e era fanática pelas praias do local e o chocolate único de uma senhorinha que vendia seu produto na esquina seguinte a do escritório dos irmãos Rubens & Jonas.
Felipe não sabia como, mas de alguma forma ela o inspirava e as palavras saiam com muito mais clareza ou, às vezes, até eram pensadas sem muito sentido, mas com o seu esforço acabavam ficando boas.

-I ae Tácia mais uma pilha de processos hoje?
-Olha Felipe eu realmente amo o direito, por que pra passar por isso...
-Calma um dia você será recompensada.
-Será?
-Vou te contar um segredo.
-Uhn... Adoro segredos...
-Eu vim para cá por que precisava sair da minha rotina e conseguir evoluir na minha profissão.
-Mas a vida de um advogado é baseada rotina.
-Essa parte eu não posso te contar, mas eu acho que um dia você saberá.
-Saberei o que?
-...

Felipe não contou, mas anos mais tarde ela leu algo sobre um escritor que começava a fazer sucesso mundialmente com a história de seu segundo livro que estava sendo adaptada para o cinema.
O filme era baseado num conto de Felipe e o nome era “Chocolate, óculos e direito”.

Flávio e Tácia

Flávio nunca tinha se sentido tão perdido.
Talvez ele soubesse desde o início que toda aquela situação, criada por ele mesmo, (isso ele admitia) tinha impossibilidades fortes demais para se começar um relacionamento.

Tudo ou nada...

Flávio não estava disposto a arriscar. Simplesmente não podia conceber a idéia de não ouvir a voz de Tácia no telefone, em algumas ligações esporádicas durante o mês, enquanto envelhecia...
Seu humor era inconstante demais para manter-se isento de sentimento extremos, por muito tempo, e o que era inevitável aconteceu: Tácia descobriu.
Sua vida então se resumiu, durante um período grande demais para ser contado, em sentir o cheiro do cabelo de Tácia e perceber cada peculiaridade inerente a sua personalidade.
Era algo natural e Flávio não precisava fazer força alguma para continuar o que estava fazendo.

O “Fantástico mundo de Bob..."

Tácia sempre foi realista com Flávio e por mais que realmente houvesse alguma “coisa”, era uma “coisa” que não tinha força suficiente para mover os destinos que estavam sendo traçados. De forma lenta e agoniante ele via o tempo e os fatos passarem sem poder mover seu lábio para poder gritar o significado de um sentimento que nem ele conseguia traduzir com palavras de tão forte.

O que ele ia dizer então: Olhem o bobo!

A Maioria das pessoas, com certeza, achariam esse discurso clichê enquanto a minoria não.
Ele aceitava. Estava agradecido pela felicidade da pessoa por quem o seu sentimento já tinha ultrapassado o significado da (hoje) “palavra-clichê” amor.

Que ridículo!


Estava disposto a não fazer nada.
Por Tácia ele estava disposto a simplesmente olhar... A pensar demais e olhar...
Tentou mudar de ambiente, ele iria para um lugar reconhecidamente melhor, porém não conseguiu. Não podia perder os últimos meses em que teria a possibilidade de sentir o cheiro e ver os trejeitos tão característicos desfilando por perto.
E por que ele pensava assim?
Acho que porque aquela percepção do que é óbvio nunca tinha se mostrado tão presente. Sem duvida ela estava lá, mas nunca tão presente.

"...Não dá mais pra ser como era antes
Tem mais alguém?!
mais forte que tudo que você sonhou
mais forte que tudo que ela já sentiu
mais forte do que qualquer explicação."

Zander

Aquele sim era um grande time

Continuação do post: http://matutandorj.blogspot.com/2009/02/aquele-sim-era-um-grande-time.html

O técnico sabia que a minha única, e mais destacável, qualidade como jogador era a marcação. Por isso era compreensível a minha entrada no time no lugar de Vandinho, para uma marcação individual, mas tinha que ser logo naquele jogo e em cima do Alan.
Entramos e eu pude sentir o chão duro e arenoso do Campo do Caroço debaixo da minha chuteira.
Posicionamo-nos para dar inicio a partida.
Muitas pessoas se seguravam na grade, que envolvia o campo, e eu podia ouvir o murmurinho de expectativa que cercava o lugar. Parecia o coliseu de Roma e os súditos estavam prontos para gritar: Morte aos gladiadores!
O juiz que entrou em campo era o Neca. Ele vivia no bar e estava com uma camisa amarela apertada ridícula que mostrava a sua enorme barriga de chope cultivada com anos de cevada.

Todos riram alto quando ele entrou em campo e apitou o inicio da partida.

Imediatamente me posicionei perto de Alan.
Na primeira bola do jogo ele só pode ver a minha antecipação e o belo passe que dei para um chute perigoso de Feição.
Logo após o lance olhei para o meu pai, que estava atrás do nosso gol se escorando na grade, e percebi um sinal positivo com a cabeça seguido de um grito:

É isso ae Raphael!

Durante todo o jogo Alan teve muito poucas chances, pois no final das contas apesar de ele ser extremamente habilidoso e mais forte, eu tinha uma vantagem que foi decisiva: a agilidade.
Antecipava-me a cada bola com muita rapidez e atenção. Percebia a inquietude nele a cada jogada que se seguia e a cada grito do meu pai na beira do campo:

É isso ae Raphael!
O Alan ta fud...
Fica nervoso não ein por...!


Foi quando no segundo tempo numa batida de escanteio, em que eu estava mais uma vez o marcando, a bola estava viajando para a área e algo que parecia inevitável, e eu estava prevendo desde o anuncio da minha titularidade no jogo, aconteceu.
Até hoje eu posso visualizar, em slow motion, a bola vindo para a área e o cotovelo de Alan indo para frente e voltando com toda a força atingindo em cheio o meu nariz que imediatamente começou a sangrar.
Lembro de ver Neca, com sua camisa amarela na metade da enorme pança, vir correndo e expulsando Alan enquanto eu saia de campo escorado por vandinho, que entrou em campo para me ajudar, e era substituído por Digão.
Depois daquele jogo me tornei a principal arma do time para marcação e o treinador, às vezes, até me colocava como titular.
Quando o jogo acabou meu pai fez Alan me pedir desculpa e me pagou um refrigerante no bar enquanto ele tomava uma lata de cerveja. Ele olhava para mim e aquele foi um dos poucos momentos na minha vida em que realmente tivemos uma relação sincera de pai e filho.
Aquele sem duvida alguma foi o melhor jogo da minha vida e aquele sim era um grande time...

A fábrica





Quase posso sentir o vento soprando no meu rosto quando eu conseguir sair dessa maldita ilha que me prende.
A clandestinidade não é o jeito mais nobre de se ir embora, mas diante de minha atual condição nada mais me colocará para baixo.

Pelo menos você tem um emprego

Um emprego é uma coisa, passar o dia numa fabrica confeccionando e empacotando produtos para uma outra pessoa sabe-se lá onde consumir é outra. Por que todos nós não temos esse maravilhoso direito?

Temos que pensar no próximo...

Falar isso sentado na frente de um computador tomando um copo gelado de coca-cola é fácil. A produção para as massas é um dos trabalhos mais estafantes que existem e o ambiente nessa fábrica é tão limpo...

Um ambiente limpo é o inicio para uma melhor condição de trabalh...


Que as condições de trabalho explodam!
Quero ter algo para reclamar da vida. Aqui todos têm o que comer e o sistema de saúde é ótimo, mas onde esta o meu tênis de mola e por que eu não posso pegar um desses milhares de chocolates que empacoto todo dia.

Isso é o néctar do capitalismo. Você por acaso quer ser um desses porcos como eu?

Talvez.
E se eu simplesmente não quiser colocar o bem comum a cima do meu próprio bem estar. Sou obrigado a gostar de você ou de qualquer um?

Sim se você quiser ser uma pessoa melhor.

Pois então esta decidido: Não quero!
Quero ser mais um porco chauvinista e comprar até me endividar todo. Quero ter que pegar um grande empréstimo num banco e esperar por cinco anos até a divida expirar para fazer a mesma coisa de novo... E de novo... E de novo.

Isso é loucura!



Loucura é eu estar aqui suando nessa fabrica (onde já se viu uma multinacional num sistema como esse?!) enquanto você trabalha numa sala com ar-condicionado e vai ao shopping no final de semana.

Que bela ilha para se viver...

Aff, maldita ilha!

Bastidores




- Grande show rapazes!
- É realmente foi bom.

A banda estava reunida no backstage, se preparando para voltar ao hotel. Os jornalistas, críticos musicais e curiosos presentes eram só elogios para o grupo com a melhor performance ao vivo do ano anterior.
Alguns canais que transmitiam ao vivo o concerto tinham repórteres que perguntavam para os seus telespectadores no final da matéria: “Será que Os Nilos vão conseguir repetir a façanha do ano passado?”
Alheios a tudo o que acontecia os quatro rapazes voltaram ao hotel, mas não sem antes enfrentar a multidão feminina enlouquecida por, pelo menos, uma visão do guitarrista-galã da banda: Júlio.
Quando chegaram ao andar do luxuoso prédio, previamente reservado para a banda, a festa realmente começou. Júlio se cercou de duas lindas mulheres enquanto enfiava o seu nariz no pó branco, cuidadosamente separado, que estava sobre a mesa.
Lá pela terceira carreira ele resolveu ir para o quarto com uma garrafa de cerveja na mão e uma mulher em cada braço.

5 minutos depois

Léo, o baterista, vê Júlio saindo sozinho do quarto e grita: Pqp Júlio... Cinco minutos meu irmão... Isso é que é precocidade!

Risos de todos

Júlio nem liga e se dirige para a sacada do andar onde só teria a companhia de sua cerveja e de seu celular.
Ele procura um número na agenda e depois de alguns minutos pensando e de um longo gole na sua cerveja faz a ligação:

Tuuuuuu... tuuuuuu... tuuuuuuu... tuuuuuuuu...

- Alô
- Oi, quem fala?
- É o Júlio do colégio. Lembra de mim?
- Júlio... Claro Júlio! Faz quanto tempo, cinco anos?

É bom saber que ainda existem coisas que não mudam com o tempo: ela ainda tem insônia


- Por ai...
- Você trocou de número? Tentei ligar inúmeras vezes durante esses anos.
- Troquei sim e você sabe por quê.
- Não acredito...
- Eu precisava “ser” sem você.
- Então por que ligou?
- Estou com o seu número desde a última turnê, mas não tive coragem...
- Então Por que ligou!?!
- Por que acabei de fazer o melhor show da minha vida e não me sinto completamente feliz, por que acabei de sair do quarto com duas lindas mulheres e não fiz nada, pois você surgiu de repente na minha cabeça, e por que ultimamente nem as drogas, lícitas ou ilícitas, conseguem mais inibir o meu pensamento.
- Não queria isso, talvez se tivesse acontecido em outro momento, mas você sabe que eu ainda estou noi...

A imagem da presença circular na mão dela chegou em mim como um soco no estômago.

- Então não me ligue mais!!!
- Mas foi você quem ligou!
- Quer saber: Que se dane!

Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu

Perdi?





Quais são as características de um bom alvo para se praticar um assalto?
Eu sinceramente não sei responder a essa pergunta, mas reservo-me ao direito de assaltado: Também posso surpreender o ladrão.
Dizem que a reação de uma pessoa, por mais tranqüila ou nervosa que ela seja, é imprevisível num momento desses.
A imprevisibilidade nunca foi uma virtude muito latente em mim, mas hoje percebi por que o ser humano é tão... ah sei lá.
Faço uma caminhada considerável até a minha casa todos os dias ao voltar da faculdade, só que hoje um fato novo aconteceu: fui abordado por três homens.

- Para e passa tudo agora.
- O que?
- É o que você ouviu. Perdeu...
- Perdi?

Olhei para o lado e percebi o tamanho da encrenca. Os rapazes deveriam ter os seus dezenove-vinte anos e eram consideravelmente grandes.

- Você é surdo filho da p... Me dá a mochila.
- Se eu fosse isso seria um grande problema né?
- Ainda é engraçadinho o viad...
- Olha meu irmão hoje você vai ter que fazer mais do que xingar pra eu te dar ess...

Foi quando o homem de traz me deu um soco na costela.
Quase me ajoelhei no chão e segurei o local onde o soco havia sido dado. Sentia uma Dor descomunal.
Num último ato de idiotice, enquanto dois dos grandões puxavam a mochila das minhas costas, concentrei toda a dor do momento, e dos últimos anos, para direcionar um murro no que estava a minha frente e tinha dito as palavras iniciais.
Foi um murro e tanto... Um daqueles que você manda poucas vezes na vida.
Ele caiu.
Foi um gancho bem no queixo e eu pude ver a cara dele indo pra trás enquanto respingos vermelhos, e agora não eram os meus, tocavam pela segunda vez o chão.
Os dois grandões me largaram e foram socorrer o comparsa ferido que descobri, pelos seus gritos, se chamava Neca.
Tentei levantar mais não consegui. Eu sábia que estaria perdido se não levantasse, mas não consegui. A verdade é que depois dos últimos acontecimentos em minha vida a vontade de me erguer realmente não era das maiores.
E eles vieram para o contra-ataque com força.
Proferiam chutes seguidos sobre o meu corpo inerte no chão.
Neca se levantava vagarosamente e vinha com o punho cerrado na minha direção. Os grandões me levantaram (a dor estava pior do que antes) e me seguraram pelos braços quando Neca, num único movimento, levou o seu braço direito para trás e me deu a maior dor física que já senti.
Quase desmaiei.
Eles me deixaram no chão e a última coisa que ouvi e vi foi à imagem de Neca indo embora sendo escorado pelos seus comparsas enquanto dizia: Deixa esse pela saco pra lá.
Se eu tivesse forças gritaria: ME MATEM IDIOTAS! Por que não me dão uma morte digna!
Não tive.
Mas que merda... Não se fazem mais bandidos como antigamente...

Os maiores desde...




- Renato: Você não sabe nada eu sou a alma dessa banda!
-Van: Você esta louco um critico o elogia e você se acha Jimmy Page!?
-Renato: Você ouviu isso John?
-Van: John ele esta cego.

...e mais uma vez naquele dia os dois principais compositores da banda saíram discutindo de forma contundente um contra o outro. Já havia se tornado rotina na vida cotidiana do Power trio: Os Nilos.
O Guitarrista Renato e o Baixista Van, que tinha um sério problema com o seu nome verdadeiro Vandemberg, vinham tendo quase que uma queda de braço nas ultimas semanas pelo controle criativo da banda e a consequente vertente do rock para onde o primeiro cd dos nilos ia se direcionar.
Entre esses dois porém, havia John o baterista da banda que por melhor instrumentista que fosse, e ele realmente era, sábia que seria só mais um ótimo baterista fora da banda que tinha um potencial enorme com os seus dois outros integrantes.
Certa vez um fã da banda, que tinha pouco mais de seis meses, disse inclusive que o ego de Renato e Van era enorme, mais nada comparado ao dos dois juntos. Pura verdade, pois nos ensaios para o término das composições Renato sempre tentava dar a musica um sentido mais blues, colocando vários licks de guitarra desse estilo, enquanto Van insistia em fazer um baixo rápido e sem muitos rodeios típicos do rock mais voltado para o hardcore.
“... toda essa briga é típica de grandes bandas, relaxe...” diziam os amigos a John. Mais ele vivia a estafante rotina de ensaios e sabia que a coisa não estava fácil.
Seu dia começava por volta das 6 horas quando ele acordava para ir ao seu trabalho num famoso jornal carioca onde ele iria ter a sua matinal reunião de pauta, com os editores, e em seguida procurar as suas fontes para as matérias do dia. Ele não se enganava, era sem dúvida melhor jornalista que musico, mais esse sonho vinha lhe custando trabalhar em poucos finais de semana e sair sempre no horário, o que para um jornalista é mortal.
Os ensaios ocorriam durante três vezes na semana: segunda, quarta e sexta além do freqüente show de sábado. Tudo bancado por uma gravadora que ia produzir o primeiro cd dos rapazes que em pouco tempo, e sem mesmo ter gravado um disco, já tinham prestigio no meio por terem colocado quatro musicas num site, de divulgação de bandas, em que foram definidos por críticos musicais como a salvação do rock e por fãs como a banda mais revolucionária do gênero desde o Nirvana e o seu grunge de Seattle.
John sempre achou que todos esses elogios não podiam ser feitos aos Nilos pelo excesso de egocentrismo de seus integrantes. Ele sempre soube que isso ia acabar acontecendo um dia pelo talento de seus companheiros, mais que exatamente nesse ponto seria definido o futuro da banda.
Desde a primeira vez que tinha visto Renato sábia que ele era uma estrela, tocava guitarra como um bluseiro com alma de roqueiro, se é que isso é possível, ele sabia como ninguém o limite entre o virtuosismo e a chatice, entre a atitude no palco e o rótulo de poser. Resumindo... Ele tinha que entrar na banda.
Foi assim que depois de uma apresentação dos “Vulgares” (ex-banda de Renato), John foi ao camarim para convida-lo a integrar sua banda, que com o fim dos Vulgares alguns meses depois, teve toda a atenção de Renato.
Com Van tinha sido um pouco diferente, amigos desde a infância, o talentoso baixista tinha uma destreza no instrumento impressionante, mandava slaps como ninguém e tinha uma noção rítmica que faria Paul McCartney ter inveja no seu auge nos Beatles. Ele era a ligação perfeita entre as guitarras arrasadoras e o vocal “rasgado” de Renato com a sua bateria precisa.
Esses eram Os Nilos gênios, porém egocêntricos demais. Demais até mesmo para uma época em que existiam os irmãos gallagher do Oasis, os dinossauros do rock Rolling Stones e a impressionante Amy Winehouse.

Renato: John acabou.
John: como assim acabou.
Van: É como assim acabou, nem começou?
Renato: Pra mim chega. E sou maior que isso.
Van: Que seja, não preciso de você.

E no dia seguinte todos souberam do fim da banda que era a maior, a melhor e a mais surpreendente em muito tempo. Durante vários anos eles foram conhecidos como os ex-integrantes daquela que poderia ter sido uma banda grande muito grande, juntos, e que separados foram apenas bons músicos que fizeram um sucesso considerável e que sempre seriam conhecidos como os Ex-Nilos.

Aquele sim era um grande time

Lembro-me como se fosse hoje das defesas de Dinei, dos bons passes dos laterais Amaral e Pará, da incrível noção de posicionamento dos zagueiros Paulo e Vandinho, dos gols cada vez mais bonitos de Feição, apelido dado para ressaltar suas características mais aparentes: a feiúra e a enorme boca, e de todo o resto do time que jogava de forma magistral em todo campeonato que disputava.
Esse era o time, da divisão de base, do Onze de Ouro. Um dos clubes de maior tradição no bairro.
Eu era o zagueiro reserva dessa fantástica equipe junto com Digão, meu companheiro de banco, que apesar de ser um cara muito querido por todos tinha o seu enorme sobrepeso como fardo para nunca jogar bem.
Meu nível técnico sempre foi mediano demais perto das façanhas que Paulo e Vandinho realizavam a cada jogo. Eles eram a dupla de zaga perfeita, por isso nunca tive muitas esperanças de ter oportunidades como titular em campeonatos grandes como o que estávamos prestes a disputar naquele mês em que todas as principais equipes da região iam jogar.
No tão esperado dia pessoas chegavam de todos os cantos da cidade aglomerando-se ao redor do pequeno campo onde os jogos iam ser disputados.
Meia hora antes tínhamos nos encontrado na casa do treinador para tomar um leve café da manhã e para pegar os uniformes dos profissionais do Onze de Ouro. Os mesmos que os nossos pais utilizavam nos jogos oficiais da equipe.
Porém, na preleção do treinador antes da pequena caminhada de 3 minutos até o campo, a falta do capitão e titular absoluto da vaga foi sentida.

-Onde esta o Vandinho?
Perguntou o treinador.
-O pai dele disse que já esta o trazendo de carro.
Disse Paulo, o companheiro de zaga e melhor amigo.

Mas quando Vandinho entrou pelo portão da casa ninguém conseguiu esconder a surpresa de vê-lo mancando escorado pelo pai.

-Vandinho o que aconteceu?
Perguntou o treinador
-Fui trocar uma lâmpada para minha mãe ontem e torci o pé quando cai da escada. O médico disse que só poderei jogar semana que vem.
-Você não jogará na estréia então?
-Não.

Naquele momento várias visões me assustaram: os rostos dos membros do time que pareciam crianças que acabaram de ser abandonadas pelos pais, o de Vandinho por só poder ter a chance de corresponder às expectativas na semana que vem e a de seu pai que não ia poder ver a estréia do filho no campeonato. Mas nada me surpreenderia mais do que o anuncio do treinador, após um interminável minuto de silêncio.

-Raphael você será o titular!
Atirando-me a camisa 4 enquanto sentenciava o meu fardo.

Alguns minutos depois estávamos chegando ao campo devidamente uniformizados. Era um belo uniforme amarelo com inscrições pretas. Uma em particular, apesar de pequena, sempre chamava atenção. Lia-se na gola: Bebedores por excelência jogadores por teimosia.
A tabela dos jogos naquele dia foi a primeira coisa que todas as equipes procuravam e ela mostrava que o nosso primeiro jogo seria o mais difícil da primeira fase: Onze de Ouro x Bug do Milênio, um clássico do bairro que era sempre mais disputado devido a uma velha rixa entre Vandinho e Alan.
Alan era o atacante do Bug que perdeu sua namorada para Vandinho dentro de uma famosa casa de show na cidade. Os jogos entre os dois times, desde então, sempre tiveram toques de clássico com porradas, faltas desleais e todos os ingredientes necessários para se fazer um grande jogo.
Tendo posto essas condições de jogo, adivinhem quem seria o substituto do Vandinho naquela manhã?
A pessoa que receberia toda a ira de meses acumulados de raiva por uma namorada roubada?
Aquele que só não seria morto se uma improvavel substituição pelo meu companheiro de banco Digão fosse efetuada?
Eu.
Tremia como um gladiador ao ser mandado para a batalha no coliseu de Roma lotado.
Entramos no famoso “campo do caroço”.
Lá a grama se resumia a um pequeno amontoado nas extremidades de cada canto e todo resto era composto de pura terra batida. Uma queda ali se traduzia facilmente em joelhos e mãos ralados, isso é claro, com muita sorte.
Ahh, e eu podia ver no rosto de Alan a avidez em me dar uma bela porrada e me deixar sem andar por uns bons dias naquele jogo. O olhar dirigido a mim era mortal e eu podia quase ler o pensamento dele: Hoje alguém vai pagar pelo que o Vandinho me fez e o escolhido foi você moleque.

(CONTINUA)

A batida




Tum ta ta Tum ta

Isso era tudo o que eu ouvia naquela noite.
As batidas ressoavam de algum lugar e eu podia ouvi-las claramente em minha cabeça. Era um som forte, compassado, esquizofrênico e parecia viciante de uma forma estranha, mas sedutora.
Conheço essa batida, mas de onde?
Saio para a rua e vejo uma marcha de pés precisos e olhares atentos.
Do céu aquilo deveria estar parecendo uma bizarra fileira para um formigueiro numa proporção muito maior.
Para onde está indo senhor?
-Ele aponta para a sua própria mão onde uma tatuagem com a letra S estava à mostra-

Tum ta ta Tum ta

Sr. S, por favor. Esqueceu-se das regras?
Que regras?
As regras do partido opressor vigente ora.
-É melhor não contrariar o louco-
Ah sim claro, me desculpe Sr. S.
Tudo bem Sr...
-Ele pega a minha mão onde uma letra R esta cravada-
...R estamos indo para a praça central. Para a festa do partido.
Ah claro, vou com vocês.

-Que m... de tatuagem é essa?-
Ao acompanhar a imensa multidão percebo que todos, que nela se encontram, também têm a marca na mão.

Tum ta ta Tum ta

Depois de dez minutos numa boa caminhada chego à praça central da cidade onde pessoas que saiam de todos os cantos se aglomeravam.
Aquilo era muito parecido com um formigueiro...
No canto da praça estava o palco para onde todos se viravam ao chegar e tentavam ficar o mais próximo possível. Era um palco imenso. Digno de um show dos Rolling Stones. No fundo havia um gigantesco telão que tinha, em letras garrafais, os dizeres: Mais uma vitória sua, mais um vitória do Partido Opressor.

-A batida ficando mais forte a cada passo que dava em direção ao palco-

Finalmente vejo de onde vinha o maldito som que estava ressoando por toda a cidade. Alguns metros a frente do telão havia um baterista tocando com verve a batida que reverberava.

-As luzes se apagam-


Sobe ao palco um senhor, com um contrabaixo nas mãos. Ele se intitulou Sr. K ao mostrar a marca em sua mão para o câmera e consequentemente para a multidão que o acompanhava.
O Sr. K pelo que entendi era o presidente eleito do partido e estava ali para fazer uma espécie de show da vitória.
Ele empunhou o baixo e começou a tocar as primeiras notas que foram seguidas por um urro de êxtase do povo e uma cara de surpresa minha quando finalmente reconheci a musica.

-Era “Climbing Up The Walls” do Radiohead-

É nesse instante que sobe ao palco uma mulher que passou pela segurança, imprudentemente, e foi agraciada pela ousadia com a permissão do Sr. K para dançar com uma piscada de olho para os seguranças.
Era a Srta. T como a mão que era focalizada no telão fazia questão de mostrar.
Ela estava a mais de cem metros de mim com algumas centenas de pessoas na frente, mas...
De repente simplesmente nada mais importou. O partido opressor (que nome mais sugestivo) que devia estar enganando a todos naquela cidade, a bizarra convergência de seres humanos dentro da praça, a música do Radiohead que reverberava feita só por baixo, bateria e voz, a tatuagem que apareceu sem nenhuma explicação na minha mão e toda aquela bizarra situação pareceu não existir mais.
Nada chamaria mais a minha atenção naqueles próximos instantes.
Ela estava com uma saia (daquelas de hippie) e uma camiseta preta, os cabelos curtos enrolados dançavam soltos no ar e parecia que o cheiro dela tomava conta de todo o ambiente. Dançava de uma maneira "graciosamente desajeitada", mas definitivamente linda. Era pequena na estatura, porém o telão fazia questão de mostrar o quanto ela era grande em sua perfeição na junção de cada parte de seu corpo, personalidade e charme.
Eu a gritei. Freneticamente a gritei quando finalmente pareceu, pelo menos em minha tola mente, que por um momento ela olhou pra mim. Por um milésimo de segundo eu acho que ela olhou para mim.
Naquele instante simplesmente nada mais importou...

Janela



Tenho tido muito pouco tempo para reparar no que existe ao meu redor em casa. Trabalho, faculdade, cursos e amigos têm consumido o meu tempo de uma forma impressionante nos últimos anos.
Hoje acordei no meio da madrugada, em mais uma noite mal dormida, e me dei conta de que haviam construído um muro na minha janela.
Meu quarto é um cubículo, de poucos metros quadrados, que só tem duas aberturas: a porta e a janela. A segunda desde que me lembro tinha uma grade o que muito me incomodava, mas era algo com que eu podia conviver. Agora um muro já é demais.
Insone não conseguia nem me mexer para olhar em volta. Meus olhos estavam fixos naquela janela totalmente tomada por um muro de tijolos horrível que me dava uma sensação de sufocamento, estava difícil de respirar.
Como numa madrugada você acorda e percebe que há um muro, de não sei quantos metros, que o impede de ver o céu?
Com a minha falta de movimentos por preguiça ou por querer imaginar coisas absurdas, fato que tem se tornado bastante recorrente nos últimos tempos, tentei imaginar como estava a minha porta naquele momento.
Por que eu não conseguia me virar para dar uma espiada?
Será que lá havia um muro também?
Se houvesse eu estaria em sérios apuros. Só aquela visão na minha janela já me sufocava. Se eu me virar e meus pensamentos estiverem realmente certos poderei ter um ataque de claustrofobia, mal que nunca tive, ou que pelo menos nunca se manifestou, e morrer.
Bom, pelo menos assim irei ver o que tem no topo daquela monstruosidade que se ergueu de repente frente aos meus olhos.
Isso se eu fosse para o céu e claro.
E se tiverem erguido essa barreira aos poucos?
Eu só uso minha casa para dormir e nas manhãs de sábado e domingo. Não me surpreenderia nada se essa vizinhança (excrotos!) tivessem resolvido se vingar desses 22 anos de musica alta que, eu de forma absurda, sempre achei que pudessem disfarçar a vinda de minhas namoradas aqui na ausência dos meus familiares.
Entre algum desses loucos deve ter um “metido a Jigsaw” que armou isso pra mim. Logo que eu me levantar acionarei um dispositivo que ligará minha TV reproduzindo um vídeo com instruções, sobre uma prova insana, que terei de realizar para salvar minha vida e consequentemente, minhas aventuras musicais e sexuais...
Por favor, será que esses velhos não tiveram adolescência?
E do que eu estou falando?
Sou pacato, até demais, perto de pessoas que conheço e “cagam” para tudo e, as vezes, para todos.
A minha maior virtude é a de não enganar ninguém. Jamais declarei que gosto sem ser absolutamente sincero. Isso deve valer de alguma coisa.
M...
Acho melhor eu tentar dormir. Assim quando eu levantar e a prova começar estarei bem disposto e com maiores chances de sobreviver e...

Esperando




30 min

Por que eu vou tirar carteira de moto?
Sei lá... Talvez por que essa cidade esteja cheia de carros em engarrafamentos gigantescos e por eu estar cansado de pegar o meu ônibus diário que demora, em média, meia hora por dia.

Meia hora é uma eternidade!

Sei lá, quantos planetas e estrelas podem ser simplesmente engolidos por buracos negros em meia hora?
Aliás, acabaram de descobrir um na Via Láctea, então fiquemos atentos.
Se eu somasse todas as "meias horas" que já passei esperando esse ônibus, poderia fazer inúmeras coisas: Uma pós-graduação, ir para alguma festividade e encher a cara, ficar com uma mulher e chama – lá pelo nome daquela que sempre penso ou até mesmo fazer uma viajem para bem longe, como aqueles quarentões em crise, são boas opções que me vem a cabeça agora.

40 min

Isso se pra fazer a viagem eu não tiver que pegar esse ônibus...

A moto é um veiculo muito mais descomplicado, não tenho a obrigação de andar com ela abarrotada de gente numa viagem e muito menos dar caronas indesejadas, já que, eu só tenho mais um lugar.

Egoísta?

É talvez eu seja. Essa é uma boa definição para quem tem moto.
Uma pessoa que tem uma esta quase dizendo: “Sou muito seletivo, você acha que atende aos requisitos para me pedir uma carona?”

E os mototaxis?

Bem, esses são a escória do veículo, estragando toda uma história de estupidez, ignorância, bares e estradas.
Um dia desses, eu vi um grupo com uma camisa preta com dizeres amarelos. Nela estava escrito: “Mototaxi, pode confiar” e depois aquele bonequinho de cara amarela piscando do MSN. Isso mesmo o do MSN!
O vocalista do steppenwolf (Born to be wild) devia estar se revirando no tumulo naquela hora.

Isso se ele estiver morto?

Não importa. Estou entrando para o clube para mostrar a essa corja como se pilota de verdade e...

50 min

Argh, corja essa que o motorista do ônibus que irei pegar COM CERTEZA faz parte para demorar tanto...

A facilidade de se estacionar, por exemplo, é imensa. Em todo estacionamento tem aquele quadradinho, reservado para os motoqueiros, que proporciona uma grande praticidade, pois geralmente fica próximo a entrada.

A facilidade de roubar também é grande. É só sair empurrando a moto. Quanto custa um seguro de moto?

Ahh, estamos no Rio de Janeiro! Se você largar um canhão por aqui e der uma volta no shopping existe uma grande chance de ele ser roubado, afinal de contas os bandidos gostam de veículos grandes e blindados para a fuga.

1 hora

Finalmente eu vislumbro um final para essa odisséia... aff

Subo no ônibus

Em construção


















-No caminho para o cabeleireiro-

Você tem uma característica que faz com que todos o reconheçam? Aquela parte de você que só de citarem, a sua imagem vem à cabeça...
Bom, eu tenho e estou prestes a perdê-la.
Desde a minha adolescência tenho uma peculiaridade que me diferencia e que gerou o meu apelido que considero como o meu segundo nome: Cabelo. O meu pode ser comparado ao do zagueiro espanhol Puyol, que em muito se parece.
Fui acometido por um repentino e letal ataque de piolhos, que não sei onde consegui, e acho que vou ter que mudar minha identidade. Terei de cortá-lo com a máquina 1 para que ele fique bem baixo e os malditos me deixem.
É impressionante como coisas tão pequenas podem ter criado com o tempo imunidade a todo o tipo de xampu e remédios como o famigerado Kuel.

-Tropeço numa pedra na calçada-

Argh, maldita cidade...
Talvez seja por eu morar tão mal que tenha sido castigado com essa praga. Só um lugar muito ruim tem calçadas tão irregulares assim. Quando em toda a sua vida você estaria andando em Copacabana, Ipanema ou Leblon e teria que ficar pulando as irregulares calçadas de uma casa para outra?
Estou fazendo os cem metros com barreira só para mudar minha identidade (cortar o cabelo), acho que começarei a treinar para a próxima olimpíada, afinal em esportes com pouca tradição o simples fato de chegar lá já me renderia um belo patrocínio. Isso seria compensador. Já que vou ser uma nova pessoa, que pelo menos fique rico dessa vez.
Estava pensando inclusive em mudar de nome. Como será que meus amigos da rua vão me chamar agora? Será que eles chegaram à porta da minha casa e dirão: oooo sem cabelo!?!
Parece um chamado grande e estranho demais...
Eu poderia ser um skinhead, ou até mesmo ir para a Rússia e me tornar um soldado ou um astronauta. É talvez fosse possível, talvez...
Poderia ir ao cartório e pedir a mudança para o nome de alguém famoso:

Barack Obama... Uhn, pop demais
Michael Jackson... Não é mais tão pop e agora é muito estranho
Steven Spielberg... O ultimo filme bom que me lembro dele foi Jurassick Park
Galvão Bueno... Esse não...

Já sei: Eric Clapton dos Santos!
Bom, pelo menos o cara tem o título de Sir na Inglaterra e, até onde eu sei, sempre foi ele mesmo.
Esta decidido, amanhã mesmo mudarei meu nome. Vou ao cartório e logo de manhã todos conheceram uma nova pessoa. Antes que me vejam em casa e queiram me matar por acharem que um desconhecido a esta invadindo.
Não serei nada mais que um primo distante que se mudou para cá enquanto “eu” consegui um emprego em São Paulo e deixei a casa para ele.

-Pela manhã, pouco depois das 8 horas um vizinho me grita do outro lado da rua-

I ae Cabelo como é que vai?
Cortou a Juba né?

Mais do que você




-Você acha que eu sou artificial?
-Claro, totalmente.
-Quem é você pra me dizer isso?
-Ninguém, e esse é o problema não é? E se eu fosse alguém...

Era um simples bate papo com uma desconhecida, na internet, que pelo visto era aventureira demais para o meu gosto, pois percorria o mundo todo com uma mochila e sem nenhuma garantia de que teria o que comer no dia seguinte.
Dizia que tinha muito mais do que um diploma de engenharia civil pendurado na sala e um bom salário, ela tinha liberdade.
Louca...
Que liberdade utópica é essa que ela falava?
Por que ela não tenta exercer o direito básico dela de se alimentar aqui sem dinheiro pra ver o que vai lhe acontecer.

-Eu construo sonhos, moradias para você deixar a seus filhos e netos!
-Exato, você constrói e financia sonhos. Eu não quero um sonho financiado! Não quero dividir o meu sonho em 60 parcelas.

Tola, o que deixará para os seus filhos... Uma viagem e uma transa na Holanda, um mergulho no Havaí um pulo de asa-delta...
Não preciso passar pelo frio europeu, tenho o meu casaco e um aquecedor, não preciso das viagens clandestinas, vou de primeira classe. (risos)

-Não preciso disso. Tenho tudo, e você o que tem?
-Nada.
-E então...
-E então nada. Na tenho nada, e isso é mais do que você jamais terá.
-Eu tenho tudo.
-Você tem previsibilidade, se acha que isso é bom tudo bem...

Não sou nada previsível, tive conquistas demais em minha vida para ser previsível. Não nasci em berço de ouro e tudo o que conquistei após os meus 18 anos de idade foi com esforço próprio. Que se dane a previsibilidade, sou antiquado e este decretado. Continuarei em minha sala gelada pelo meu ar-condicionado, meus papéis reciclados, pois ajudo a natureza (piscada de olho), com minha bela namorada e meus projetos.

-Isso é tudo o que você é e ponto?
-É mais do que eu poderia.
-Então você não “é”, você foi. Agora você é alguém ou algo novo.
-Isso não faz sentido, sou quem sempre fui. Nada mais.
-O sentido não esta no ser esta no sou. Você poderia dizer eu sou...
-Claro!
-Diga!
-Não...
-Pois eu lhe direi quem sou. Sou mais intensa do que você é, e mais ambiciosa do que você foi.
-E essa agora, é filosofa também...
-Talvez, e você poderia ser?
-Não, sou engenheiro Civil.
-Exato
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