Temporariamente lar

No apartamento...

-Você tem um problema serio com sono ein...
-Eu sei, mas é meio recente e agora nesse bairro...
-Que tem o bairro?
-Nada, esquece. Não quero falar disso, mas faz umas semanas que estou assim...
-Então você simplesmente não dorme
-Isso ou pouquíssimo...
-E o que você fazia pra passar o tempo antes de vir pra cá
-Quer dar uma volta de moto
-São três horas...
-É, eu sei... Você tem que trabalaher amanhã... Pode ir dormir então...
-E você?
-Vou demorar ainda...

A mesma música

Não conseguia dormir.
O pior é que nem sequer sentia-se mal com o fato de não pregar os olhos há mais de duas semanas.
As excentricidades cometidas todo dia no trabalho provavelmente vinham ajudando no processo.
As festas de arromba com artistas e grandes estrelas contrastavam com a já costumeira saída no meio da madrugada, com seu copo de cerveja na mão, para beber olhando o mar.
Os pensamentos voavam tão longe quanto a distancia entre a vida que levava meses atrás e a que estava tendo naquele exato momento.
Numa noite entre estrelas da TV, cinema e músicos renomados o que poderia estar errado?
Simplesmente tudo.
Era a vida que ele sempre quis sem a pessoa que ele sempre quis.
Agora podia entender como dinheiro, festas, pessoas famosas e os melhores ambientes de uma cidade podiam ser ruins.
Qualquer lugar podia ser o pior lugar do mundo não importa onde ele estivesse...
Tomou mais um gole da cerveja, atravessou o calçadão, internacionalmente conhecido, e voltou para a festa quando um famoso ator lhe chamou e disse algo incompreensível devido ao seu alto nível etílico.
O mundo gira muito rápido e ele o que faria agora então com tudo o que ainda sentia...

Vontade de sumir!



Goo goo dolls - cuz you're gone

Desacelerando

Desacelerei e parei naquele lugar que agora parece tão diferente.
As lojas continuam iguais, o céu continua igual e até os ônibus... Então por que me parece tão estranho?
Minha motocicleta recém comprada anunciava um prenuncio de assalto do outro lado da rua quando três rapazes meio largados passaram e não liguei.
Sentei-me na beirada do ponto de ônibus mexendo bem devagar na chave em minhas mãos quando o celular tocou.

-Onde você esta?
-Já estou indo
-Falta muito?
-Já estou indo
-Ihh ta
-Tá bom então...
-Só estou te esperando pra entrar
-Ok

A rua principal da cidade estava quase deserta àquela hora a não ser pela luz de uma famosa rede de lanches que mantinha suas portas abertas durante toda a madrugada e logo receberia retirantes da noite em busca de comida rápida.
Passa um ônibus e uma menina bonita, que estava sentada no último banco, me olha fixamente nos olhos e correspondo... Ela da uma piscada antes do ônibus continuar e se ajeita no assento.
Começo a rodar a corda da chave ao redor do meu dedo e atravesso a rua colocando o capacete e subindo na motocicleta ligando-a.
Com a rua vazia acelero bem devagar e vou aumentando o ritmo até chegar a serie de sinais que havia depois de um morro obrigatório para qualquer um que fosse sair da cidade.
Acomodo-me na descida, como a garota da piscada do ônibus, e decido passar pelos dois sinais seguintes sem parar de acelerar.
Passo por ambos sem problemas.
Na verdade se não fosse a adrenalina de correr o risco meu corpo nem saberia o que fiz, pois não havia nenhuma outra maquina na rua a não ser a minha.
Dentro do meu capacete as faixas brancas se sucediam na estrada à medida que os meus pensamentos voavam numa velocidade tão rápida quanto.
Sempre gostei de motos por que elas me ajudam de alguma forma.
A famosa avenida que quase cortava o estado agora mostrava sua linearidade a frente e eu fui movendo meu punho até atingir a rotação máxima.
Fechava meus olhos de quando em quando e tentava levar meus pensamentos a uma pessoa, mas não conseguia pelo fato de eu não conseguir negar a verdade e recorri ao passado recente que me parecia muito mais confortador.
Ela jogava seus braços sobre meus ombros enquanto me beijava sentada num apoio de madeira.
A música agitada contrastava com tudo o que existia naquele pequeno espaço de alguns centímetros...
Seu cheiro era tão bom que eu ainda podia senti-lo, mesmo com todo vento em minha face, sua pele me parecia tão macia que a sensação de tocá-la simplesmente era confortadora e olhá-la naquele sonho veloz, enevoado e distorcido era tão real que quase podia senti-la...
Então tudo parecia bem, então não estávamos mais distantes, então parecia que algo tinha mudado e de repente eu simplesmente desejei que a famosa avenida fosse infinitamente reta.
Se assim fosse eu nunca mais ia precisar frear e passaria minha vida acelerando com os seus braços sobre meus ombros e com o seu rosto em frente ao meu fazendo com que tudo, de repente, ficasse bem não importa como o resto estivesse...
Então eu abri os olhos e voltei.
Como num choque eu voltei e a realidade era tão dura quanto foi difícil ter de frear para fazer a curva e mais ainda quando cheguei ao meu destino e não era ela que me esperava.

“A thousand words that no one's spoken
Now there's nothing left to say
A thousand words just like you
A thousand words just like you
A thousand words just like you”


Goo goo dolls – Cuz you’re gone