Reino do ser

Numa terra assolada por conflitos a esperança parecia ser algo cada vez mais raro a cada dia que passava. Muito preocupados os três principais reinos do ser foram convocados a fazer a próxima conferência, em cinco anos, para dar conta do assunto.
Faziam-se presentes à mesa o reino da tristeza, da felicidade e o do ego.
Todos concordavam que algo tinha de ser feito para a manutenção do ser. O assunto era complicado e a pauta extensa, mas o ego com a sua pró-atividade tomou a palavra:

-Não quero parecer intrujão, mas vocês devem me deixar trabalhar. Confiem em mim. Eu dou conta do recado.

A felicidade riu e questionou os fracos argumentos do ego que podia se agigantar de uma tal forma que não perceberia o que podia haver em volta.
A tristeza retrucou:

- Vocês estão cegos. As maiores criações artísticas já feitas pelo homem foram concebidas em momentos de tristeza profunda. Perguntem para músicos, poetas, pintores ou a qualquer ser apaixonado.

O ego se impõe e levanta a voz se exaltando e dizendo:

-Você esta louco!
-Não meu amigo o reino da loucura não veio hoje.
-A tristeza não sabe o que esta dizendo. Ela mesma gera como condição primordial para a sua existência atos extremos que levam o ser a ter mudanças bruscas de atitude.

Nesse ponto chegam os capitães da Dialética e da Retórica de cada reino fazendo o embate se acirrar, pois davam conselhos a cada um de seus representantes.

Felicidade: Sou eu quem lhe da os melhores momentos da vida, sou simpático e faço com que ele consiga beber e se dar bem com aquelas poucas mulheres...

Ego: Com aquelas e não com a única que ele queria. Você não tem capacidade de argumento...

Tristeza: E é por vocês não chegarem a um consenso que ele continua assim e eu tenho estado mais em evidência. Nem sabem se ela acreditou realmente nesse amor tolo...

Felicidade: Você...
Tristeza: É um...
Ego: Idiota!

Ok chega! Disse o ser para dar um ponto final no assunto.
Proponho um revezamento entre os reinos até chegarmos a um consenso e então nos reunimos de novo para ver no que vai dar.

Felicidade: Beleza.
Tristeza: Vou tentar.
Ego: Vai ser moleza.

Então o ser deu por encerrada a reunião até o próximo semestre apelidando aqueles próximos seis meses de revezamento entre os reinos de BIPOLARIDADE.

Irreal

Acordei no final de semana pronto para dar minha matinal corrida pela cidade.
Preparei-me colocando meu tênis novo, uma camisa e bermuda leve e fui para a rua quando percebi que havia algo de diferente no ambiente.
As pessoas que estavam no ônibus a dobrar a esquina pareciam sorrir sem nenhum motivo aparente.

Simplesmente todas estavam “felizes”

Esperei outros, fingindo um alongamento, para confirmar a minha suspeita que acabou se tornando embasada. Em cada ônibus que passava o sorriso amedrontador na face de cada um se fazia presente.
Esperei alguém descer para saciar a minha curiosidade sobre o estranho fato.

-Com licença senhora.
-Pois não.
-Por que todos estão sorrindo no ônibus?
-Por que a placa mandou oras.
-Que placa?
-Aquela que diz sorria você esta sendo filmado...

Por algum motivo todos que entravam no ônibus o faziam com um sorriso que aparecia tão instantaneamente quanto sumia na descida do veiculo.
Era um fato demasiado absurdo para mim, mas continuei a corrida.

Será um sonho?

Passei pela locadora e fui conferir alguns filmes para ver a noite com a minha mulher. Logo que entrei vi o atendente correr e tentar dar mortais sobre o olhar atento de três jovens que se divertiam com a frustrada tentativa do funcionário.
Perguntei aos rapazes que rindo me confirmaram que tinham pedido para que o atendente desse três mortais antes de procurar o filme que eles queriam.
Achei aquilo algo tão absurdo que indaguei o atendente sobre o mesmo fato indignado, porém só obtive um simples gesto do rapaz que apontou para a placa ao lado do balcão que dizia: “O cliente tem sempre razão”.
Sai da locadora perplexo. Em trinta anos de vida nunca tive um sonho tão real.
Pensei comigo mesmo e decidi correr sem paradas, para não me chocar ainda mais, e depois voltar para casa.

Logo aquele pesadelo deveria terminar

Comecei a trotar até entrar num bom ritmo de corrida quando avistei a praça principal da cidade.
Cheguei e rapidamente percebi, pelos últimos acontecimentos, o que havia de errado. Tinham colocado um imenso outdoor da Adidas na praça com a frase: “Nothing is impossible”.
Homens e mulheres faziam filas enormes para subir nas arvores e se jogar numa vã tentativa de voar, um garoto foi parar um carro com uma mão e foi atropelado e uma menina tentava cravar as unhas numa parede para subir até o telhado de uma casa.
No jornal do senhor da banca a matéria de capa tinha o titulo: “Massacre em micareta na Bahia”. Segundo o jornalista um suicídio em massa ocorreu num show de uma famosa cantora de axé. Quando ela proferiu a frase “Joga a mãozinha no ar” milhares de pessoas cortaram as mãos umas das outras a dentadas fazendo uma chuva de mãos decepadas cair sobre a cantora.
Fui para casa, tomei mais um banho e deitei na cama.
Dormir no sonho talvez ajude a acordar no mundo real. É... Talvez...


“...Então tire os sapatos e tente ser real
Então aumente o volume e tente ser real
Então bata mais forte e tente ser real
Então largue essa merda e tente ser real...”

Noção de Nada - Orgânico

Desenhei

Desenhei um girassol numa folha de papel
Um disforme sem muita pretensão
Talvez pudesse fazer parte de um jardim só meu
Isso se eu pretendesse um dia ter um
Pensando cá com os meus botões:
Se eles realmente girarem eu poderia fazer uma grande foto
Com um tempo de exposição bem alto
Os girassóis deveriam sair borrados
Um borrado bem bonito como não acontece na vida real
Onde as distorções se resumem às lamúrias
Da minha vida cotidiana...
Que eu insisto em colocar aqui
Dividindo assim com todo mundo
Fato que não se repete na verdade
Por que talvez a nossa verdade seja privada
Privada como a propriedade do capitalismo
Que não é compartilhada e é ainda protegida
Por cercas elétricas, câmeras de monitoramento e seguranças
É melhor se esconder mesmo
Ninguém quer ver o que você quer
Não é algo compreensível
Não é aceitável
Não é permitido
Não é recíproco
Não é seu
Não é meu
Não é do Zé, do João...
Do ninguém e nem o do pé de feijão...

Artificialidade do luxo

Em casa...

-Toma aqui. É suco de laranja.
-Isso não é suco de laranja.
-Como assim? Claro que é.
-Não é não!
-Então me diga: como é um suco de laranja?

O garoto de 5 anos vai na cozinha e volta com um pacote de tang de laranja

SOS




Às vezes custo a acreditar no tipo de situações em que só eu sei me envolver.
No último fim de semana tive que trabalhar e não foi algo muito fácil. Viajei no sábado à tarde e a volta estava programada apenas para o domingo de noite.
Chegamos à pousada lá pelas 22 horas e logo todos foram acomodados em duplas nos seus respectivos quartos enquanto eu, como de praxe, fui ler um livro na sacada.
O relógio marcava uma hora quando o motorista do ônibus, que era o meu companheiro de quarto, não se aguentou e começou a puxar conversar comigo não me deixando continuar a leitura.

Aff

Desisti e fui levando o papo, aos poucos, para o final com frases mais curtas até que consegui dormir lá pelas três.
A manhã seguinte não parecia mais agitada do que a minha noite de sábado, pois eu só iria trabalhar a partir das 14 horas então, depois de tomar o café e ler mais um capitulo do livro, resolvi fazer algo inédito para mim depois de anos: praticar um exercício físico.
Coloquei meu All Star, pus umaa camiseta no ombro, de modo que esconde-se a tatuagem nas minhas costas, apertei o play no mp3 e forcei-me a uma leve corrida para conhecer a cidade.
A praia não é muito diferente de todas as outras em que já estive, mas mesmo assim é muito bonita, tem uma lado onde um monte de grandes pedras se amontoam fazendo com que muitos pescadores fiquem por ali.
Um deles me disse inclusive que uma das etapas do campeonato mundial de surf desse ano tinha acontecido a poucos quilômetros do local.
Dei um mergulho no mar e depois decidi ir para a parte mais “urbana” da cidade que mesmo assim era muito ligada a natureza.
Passei por uma ponte, exclusiva para pedrestes, notei uma lan house que tinha a logomarca do Foo Fighters na fachada e após contornar uma banca de jornal vi uma pista de skate das boas.

Sempre quis saber andar de skate

Sentada no alto da rampa uma garota balançava as pernas enquanto mantinha o olhar fixo nelas.
Decidi ir lá puxar papo.

O máximo que pode acontecer é ela não me dar muita atenção

O nome da tal garota era Samara e tinha 20 anos. Fiz uma piada ridícula colocando o filme “O Chamado” no meio e ela, incrivelmente, conseguiu rir.

-Deve ser bom morar aqui.
-Sei lá. Depende.
-Depende de que?
-Você gostou daqui?
-É perto da praia, é um lugar muito bonito, tem pista de skate...
-Isso. É legal pra você que não esta acostumado...

Samara me disse que depois de vinte anos o lugar se tornava chato. Ela andava de skate todo dia, surfava todo dia, via aquela cena clássica do passaro sobrevoando o mar e pegando o peixe todo dia.
Para ela era normal, na verdade era... Monótono.

-E o que você esta ouvindo nesse mp3?
-Antes de parar... O disco novo do Pearl Jam.
-Legal posso ouvir...
-Claro.

Era a última musica do álbum Backspacer e a seguinte era Message in a bottle do The Police

-Você sabe sabe falar inglês?
-Não.
-Essa letra tem tudo a ver com você.

Depois de mais de 40 minutos conversando tive que voltar a pousada para almoçar e me preparar para trabalhar. Expliquei a situação e me despedi.

-Então vou indo nessa.
-Tá bom.
-Tchau legal conhec...
-Espera me diz uma coisa?
-Fala.
-Tipo, achei que você ia dar em cima de mim e nem tentou nada...

Risos

-É... Acho que sou um cara meio diferente.
-Você é gay?
-Não. Só não costumo dar em cima assim do nada. Acho que nem saberia.

Risos

-Valeu então. Bom trabalho e se aparecer de novo por aqui me liga.

Disse ela me dando o número do próprio celular


“Seems I'm not alone at being alone
Hundred billion castaways, looking for a home”

Pequeno grande lucro




Tamára era uma daquelas garotas que adorava musica.
Gostava tanto que não eram raros os momentos em que ela se pegava cantarolando alto, uma mais agitada, ou balançando a sua cabeça com movimentos bruscos demais, mas quem podia recriminar um garota de seis anos.
Não costumava prestar muita atenção ao que acontecia a sua volta, quando retornava da escola, a não ser no intervalo entre as musicas de seu mp3. E foi entre O velho e o moço dos Los Hermanos e 11 AM do Incubus que ela notou uma folha, meio amarelada, na esquina de casa que chamou mais atenção do que a musica seguinte.
Lia-se nas extremidades superiores de cada lado: Karl Marx – O Capital.
Tamára não resistiu e logo que chegou em casa se sentou para ler a tal página que marcava os números 157 e 158 do livro.
Acreditava em coincidências, nada acontece por acaso (MAKTUB), então começou a colocar em prática aquilo que tinha lido. Juntou meia dúzia de amigos e depois de pedir para que cada um fizesse a dobra de um aviãozinho de papel fez a proposta:

-Agora quem quer jogar o aviãozinho?
-Eu
-Eu
-Eu...
-Certo quem quiser jogar terá que me pagar dois reais.

Riso geral

-Como não. Se vocês não me pagarem estarão desprezando a própria força de trabalho empregada nesse objeto, ou seja, não pagando nada vocês estão dizendo que não servem para nada.

Os garotos se assustaram com a possibilidade da própria inutilidade estar tão próxima e pagaram

Depois de um mês Tamára tinha um quarto abarrotado dos mais variados tipos de chocolate e uma coleção de cd’s consideravelmente grande.
Os vizinhos começaram a indagar e a pressionar os filhos até saber como a mesada daquele mês havia acabado tão rápido. Por fim chegaram a uma conclusão e descobriram a traquinagem da menina.

Contar a mãe da pequena capitalista foi à primeira atitude

-Tamára os vizinhos estão reclamando dizendo que você esta levando o dinheiro dos filhos deles.
-É um negocio justo mãe.
-Um avião de papel por dois reais não é justo Tamára!
-Mãe o nome disso é mais-valia.

A mãe formada em sociologia ficou impressionada. Como ela sabia daquilo?

-Como você sabe disso garota?!

Foi ai que ela descobriu a tal página.
Nela Karl Marx explicava justamente como o trabalho empregado em algum objeto eleva o lucro do capitalista pelo valor da força colocada na confecção do produto.

-Filha se você tivesse lido o resto do livro perceberia que isso só gera desigualdade.
-Como assim?
-Você ganhará mais, porém as custas de que? Uma sociedade igualitária só se faz com razão e o abismo social que você vai causar definitivamente não é uma boa saída.
-Não vou deixar de ganhar os meus chocolates!
-Ok. Não posso obrigar a maior potência do mundo a ver isso, mas a você sim. Devolve se não vai levar uma chinelada!
-Não!

Crack ploft paft

-Tá bom eu devolvo... Já entendi!!!

Confissões

No interrogatório...

-O senhor sabe por que esta aqui?
-Sim. Por que uma conhecida minha foi assassinada.
-E por que o senhor descreveu em seu último romance publicado um assassinato bastante parecido.
-É. Eu escrevi três meses antes do acontecido. Muito bom não é?
-Isso é uma confissão?
-Com todo respeito senhor delegado eu sou um escritor, e contar histórias é o que faço de melhor. O senhor é um investigador, portanto se o senhor não for ótimo no que faz acho que ninguém aqui nessa sala vai poder afirmar nada, a não ser que o meu livro é o primeiro lugar em vendas nesse país.

(In)consciência

Não sou uma pessoa comum.
Quando os punks disseram “Seja você mesmo” eles não pensaram em gente como eu.
Que tipo de pessoa tem tanta consciência que mesmo bêbada não consegue se divertir numa festa.
Que tipo de homem diz para a única mulher que já amou que, mesmo não sendo ele o escolhido, fica menos triste em saber que alguém a faz feliz.
Que cara consegue postar a maioria dos seus contos num blog, durante um ano inteiro, com a mesma personagem.
Por favor! Que louco é tão pouco volúvel?!
Quem em sã consciência dirige uma moto a mais de 200 km hoje?
Talvez a consciência individual seja tão inerente ao ser que só pode ser quebrada em raras tentativas que vão se tornando cada vez mais escassas devido à alta periodicidade.
Elevar o nível de inconsciência ao máximo parecia ser uma boa possibilidade, mas a tendência não vem sendo um agente facilitador.
Acho que só quem acha que ser você mesmo não basta mais entende.
Bom, pensando bem talvez nem esses...