Irreal

Acordei no final de semana pronto para dar minha matinal corrida pela cidade.
Preparei-me colocando meu tênis novo, uma camisa e bermuda leve e fui para a rua quando percebi que havia algo de diferente no ambiente.
As pessoas que estavam no ônibus a dobrar a esquina pareciam sorrir sem nenhum motivo aparente.

Simplesmente todas estavam “felizes”

Esperei outros, fingindo um alongamento, para confirmar a minha suspeita que acabou se tornando embasada. Em cada ônibus que passava o sorriso amedrontador na face de cada um se fazia presente.
Esperei alguém descer para saciar a minha curiosidade sobre o estranho fato.

-Com licença senhora.
-Pois não.
-Por que todos estão sorrindo no ônibus?
-Por que a placa mandou oras.
-Que placa?
-Aquela que diz sorria você esta sendo filmado...

Por algum motivo todos que entravam no ônibus o faziam com um sorriso que aparecia tão instantaneamente quanto sumia na descida do veiculo.
Era um fato demasiado absurdo para mim, mas continuei a corrida.

Será um sonho?

Passei pela locadora e fui conferir alguns filmes para ver a noite com a minha mulher. Logo que entrei vi o atendente correr e tentar dar mortais sobre o olhar atento de três jovens que se divertiam com a frustrada tentativa do funcionário.
Perguntei aos rapazes que rindo me confirmaram que tinham pedido para que o atendente desse três mortais antes de procurar o filme que eles queriam.
Achei aquilo algo tão absurdo que indaguei o atendente sobre o mesmo fato indignado, porém só obtive um simples gesto do rapaz que apontou para a placa ao lado do balcão que dizia: “O cliente tem sempre razão”.
Sai da locadora perplexo. Em trinta anos de vida nunca tive um sonho tão real.
Pensei comigo mesmo e decidi correr sem paradas, para não me chocar ainda mais, e depois voltar para casa.

Logo aquele pesadelo deveria terminar

Comecei a trotar até entrar num bom ritmo de corrida quando avistei a praça principal da cidade.
Cheguei e rapidamente percebi, pelos últimos acontecimentos, o que havia de errado. Tinham colocado um imenso outdoor da Adidas na praça com a frase: “Nothing is impossible”.
Homens e mulheres faziam filas enormes para subir nas arvores e se jogar numa vã tentativa de voar, um garoto foi parar um carro com uma mão e foi atropelado e uma menina tentava cravar as unhas numa parede para subir até o telhado de uma casa.
No jornal do senhor da banca a matéria de capa tinha o titulo: “Massacre em micareta na Bahia”. Segundo o jornalista um suicídio em massa ocorreu num show de uma famosa cantora de axé. Quando ela proferiu a frase “Joga a mãozinha no ar” milhares de pessoas cortaram as mãos umas das outras a dentadas fazendo uma chuva de mãos decepadas cair sobre a cantora.
Fui para casa, tomei mais um banho e deitei na cama.
Dormir no sonho talvez ajude a acordar no mundo real. É... Talvez...


“...Então tire os sapatos e tente ser real
Então aumente o volume e tente ser real
Então bata mais forte e tente ser real
Então largue essa merda e tente ser real...”

Noção de Nada - Orgânico

1 comentários:

Tamyris Torres | 26 de novembro de 2009 06:29

já tinha lido esse seu texto...
será que foi aqui mesmo?
será que foi no seu caderno?
voltou com o blog?
não resistiu?
...rs
quantas perguntas...
Blog vicia :)

beijos
p.s: eu gosto muito desse seu texto. Ele é irreal (rs), mas a sua pitadinha irônica é a melhor!

p.s: como vai a leitura dos textos de marx?
boa semana