A fábrica





Quase posso sentir o vento soprando no meu rosto quando eu conseguir sair dessa maldita ilha que me prende.
A clandestinidade não é o jeito mais nobre de se ir embora, mas diante de minha atual condição nada mais me colocará para baixo.

Pelo menos você tem um emprego

Um emprego é uma coisa, passar o dia numa fabrica confeccionando e empacotando produtos para uma outra pessoa sabe-se lá onde consumir é outra. Por que todos nós não temos esse maravilhoso direito?

Temos que pensar no próximo...

Falar isso sentado na frente de um computador tomando um copo gelado de coca-cola é fácil. A produção para as massas é um dos trabalhos mais estafantes que existem e o ambiente nessa fábrica é tão limpo...

Um ambiente limpo é o inicio para uma melhor condição de trabalh...


Que as condições de trabalho explodam!
Quero ter algo para reclamar da vida. Aqui todos têm o que comer e o sistema de saúde é ótimo, mas onde esta o meu tênis de mola e por que eu não posso pegar um desses milhares de chocolates que empacoto todo dia.

Isso é o néctar do capitalismo. Você por acaso quer ser um desses porcos como eu?

Talvez.
E se eu simplesmente não quiser colocar o bem comum a cima do meu próprio bem estar. Sou obrigado a gostar de você ou de qualquer um?

Sim se você quiser ser uma pessoa melhor.

Pois então esta decidido: Não quero!
Quero ser mais um porco chauvinista e comprar até me endividar todo. Quero ter que pegar um grande empréstimo num banco e esperar por cinco anos até a divida expirar para fazer a mesma coisa de novo... E de novo... E de novo.

Isso é loucura!



Loucura é eu estar aqui suando nessa fabrica (onde já se viu uma multinacional num sistema como esse?!) enquanto você trabalha numa sala com ar-condicionado e vai ao shopping no final de semana.

Que bela ilha para se viver...

Aff, maldita ilha!

Bastidores




- Grande show rapazes!
- É realmente foi bom.

A banda estava reunida no backstage, se preparando para voltar ao hotel. Os jornalistas, críticos musicais e curiosos presentes eram só elogios para o grupo com a melhor performance ao vivo do ano anterior.
Alguns canais que transmitiam ao vivo o concerto tinham repórteres que perguntavam para os seus telespectadores no final da matéria: “Será que Os Nilos vão conseguir repetir a façanha do ano passado?”
Alheios a tudo o que acontecia os quatro rapazes voltaram ao hotel, mas não sem antes enfrentar a multidão feminina enlouquecida por, pelo menos, uma visão do guitarrista-galã da banda: Júlio.
Quando chegaram ao andar do luxuoso prédio, previamente reservado para a banda, a festa realmente começou. Júlio se cercou de duas lindas mulheres enquanto enfiava o seu nariz no pó branco, cuidadosamente separado, que estava sobre a mesa.
Lá pela terceira carreira ele resolveu ir para o quarto com uma garrafa de cerveja na mão e uma mulher em cada braço.

5 minutos depois

Léo, o baterista, vê Júlio saindo sozinho do quarto e grita: Pqp Júlio... Cinco minutos meu irmão... Isso é que é precocidade!

Risos de todos

Júlio nem liga e se dirige para a sacada do andar onde só teria a companhia de sua cerveja e de seu celular.
Ele procura um número na agenda e depois de alguns minutos pensando e de um longo gole na sua cerveja faz a ligação:

Tuuuuuu... tuuuuuu... tuuuuuuu... tuuuuuuuu...

- Alô
- Oi, quem fala?
- É o Júlio do colégio. Lembra de mim?
- Júlio... Claro Júlio! Faz quanto tempo, cinco anos?

É bom saber que ainda existem coisas que não mudam com o tempo: ela ainda tem insônia


- Por ai...
- Você trocou de número? Tentei ligar inúmeras vezes durante esses anos.
- Troquei sim e você sabe por quê.
- Não acredito...
- Eu precisava “ser” sem você.
- Então por que ligou?
- Estou com o seu número desde a última turnê, mas não tive coragem...
- Então Por que ligou!?!
- Por que acabei de fazer o melhor show da minha vida e não me sinto completamente feliz, por que acabei de sair do quarto com duas lindas mulheres e não fiz nada, pois você surgiu de repente na minha cabeça, e por que ultimamente nem as drogas, lícitas ou ilícitas, conseguem mais inibir o meu pensamento.
- Não queria isso, talvez se tivesse acontecido em outro momento, mas você sabe que eu ainda estou noi...

A imagem da presença circular na mão dela chegou em mim como um soco no estômago.

- Então não me ligue mais!!!
- Mas foi você quem ligou!
- Quer saber: Que se dane!

Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu

Boa pedida















Hoje as montanhas da cidade me pareciam um pouco mais distantes
De repente foi só uma ilusão de ótica
Dormir nunca foi tão difícil
Talvez seja por não saber se você também esta

O cachorro com o relógio disse que era melhor acordar
Para quem sabe começar um novo vício
É a maldição da cidade
Ou quem sabe simplesmente mais uma verdade

Há algo nessa sacola?
Uma casa ou uma simples viagem
Para onde?
Pra bem longe, e só de ida...
Uhn, boa pedida

Para que lado os girassóis giram senhor?
Se é que eles giram...
Não acreditarei no que os cientistas dirão?
É melhor acreditar, pois os girassóis nunca falarão

Qual é a verdade nisso?
Provavelmente nenhuma
Então por que escrevo coisas sem sentido
Acho que pra parecer menos óbvio...
Então tente ser mais vivo

"Será tão triste quanto o seu olhar
Será tão forte quanto o seu olhar
Não há ninguém como você
E só você me faz
Já não consigo nem lembrar do mundo antes
Do sol, da chuva, antes de você"

Há algo nessa sacola?
Uma casa ou uma simples viagem
Para onde?
Pra bem longe, e só de ida...
Uhn, boa pedida...
Realmente me parece uma boa pedida...

I wish





Havia uma sensação torpe no ar. Era um lugar de cores vivas e variadas, bebidas e drogas liberadas, para quem pudesse pagar, pessoas agitadas e uma batida musical incessantemente frenética.
Poucos lugares são tão passíveis a insensatez humana quanto uma rave.
A desse final de semana foi ainda mais especial por ser um evento “estadual” em que ícones da cena eletrônica mundial estariam presentes.
Mais uma vez fui quase que arrastado por amigos para a tal festividade...

De novo não!


Ao chegar, um pouco atrasados, fomos surpreendidos pela banda Paranormal attack que já estava no palco com o seu guitarrista executando um solo furioso de guitarra. Isso queria dizer que tínhamos perdido a primeira atração da noite...
Numa rave com milhares de pessoas a última coisa que você espera encontrar é gente conhecida, porém foi justamente isso que ocorreu.
Foi à reunião de segundo grau mais bem feita que já houve. Se alguém tivesse marcado não daria mais certo.
Estavam todos lá e mais alguns agregados de cada grupo como sempre acontece. Digão, meu grande amigo, fez questão de me dar uma cotovelada quando a menina que eu havia namorado na época apareceu... Ela estava mais bonita do que no colégio e com um lindo vestido preto que realçava ainda mais a sua pele branca e os cabelos agora escuros.

- Oi
- Oi
- Há quanto tempo...
- É verdade.
- A última noticia que tive de você foi logo quando acabamos o colégio e me disseram que começou a fazer administração.
- É... Não deu muito certo. Agora faço jornalismo.
- Legal. Eu faço odontologia como sempre quis.
- Eu sei. Tu vivia falando desde a época em que nós...
- Namoramos?
- Isso...

Risos de ambos

Transformamos-nos rapidamente num grupo só e logo a música e o álcool fizeram seu papel e trouxeram a tona os velhos flertes de colégio. Já tinham se formado três casais em menos de uma hora.
Foi quando Digão disse:

- E ai, vai rolar aquele “recordar é viver” com ela quando?
- Não sei não...
- Por favor cara. Se tu me disser mais uma vez daquela menina eu te dou uma porrada.
- Que isso cara?!
- Deixa de ser otário e vamos viver essa merda de vida... A gente tem pouco tempo aqui e ela, na minha singela opinião, é a menina mais bonita desse nosso grupo.
- É verdade, faz muito tempo que não a vejo e ela esta mais bonita do que quando me lembro. “Na minha singela opinião.”

Risos

- Então, vai!
- Sei lá Digão... É complicado...
- Então descomplica agora. Vai!

Digão deu um empurrão que me fez parar exatamente na frente dela.

- Oi de novo.
- Oi
- I ae, pelo que eu ouvi aí você esta gostando de uma menina né?
- É meio complicado...
- Sei...
- O que importa é que você esta aqui e vou seguir o conselho do meu amigo.
- E qual foi...
- Para eu me re-aproximar de você.

Beijo

- Só me diz uma coisa: você realmente gosta dela?
- De quem?
- Da tal menina.
- Eu a amo.
- Sério?
- Isso vai fazer alguma diferença?
- Depende de você...

Beijo

E enquanto a dupla do Infected Mushroom cantava, junto com um coral de milhares de pessoas, o refrão de “I wish” no palco:

“... I’m playing the game…”

Sussurrei no ouvido dela: "Vou sempre esperar por um futuro e por uma reciprocidade que nunca verei... Mas hoje meu presente é você."

Perdi?





Quais são as características de um bom alvo para se praticar um assalto?
Eu sinceramente não sei responder a essa pergunta, mas reservo-me ao direito de assaltado: Também posso surpreender o ladrão.
Dizem que a reação de uma pessoa, por mais tranqüila ou nervosa que ela seja, é imprevisível num momento desses.
A imprevisibilidade nunca foi uma virtude muito latente em mim, mas hoje percebi por que o ser humano é tão... ah sei lá.
Faço uma caminhada considerável até a minha casa todos os dias ao voltar da faculdade, só que hoje um fato novo aconteceu: fui abordado por três homens.

- Para e passa tudo agora.
- O que?
- É o que você ouviu. Perdeu...
- Perdi?

Olhei para o lado e percebi o tamanho da encrenca. Os rapazes deveriam ter os seus dezenove-vinte anos e eram consideravelmente grandes.

- Você é surdo filho da p... Me dá a mochila.
- Se eu fosse isso seria um grande problema né?
- Ainda é engraçadinho o viad...
- Olha meu irmão hoje você vai ter que fazer mais do que xingar pra eu te dar ess...

Foi quando o homem de traz me deu um soco na costela.
Quase me ajoelhei no chão e segurei o local onde o soco havia sido dado. Sentia uma Dor descomunal.
Num último ato de idiotice, enquanto dois dos grandões puxavam a mochila das minhas costas, concentrei toda a dor do momento, e dos últimos anos, para direcionar um murro no que estava a minha frente e tinha dito as palavras iniciais.
Foi um murro e tanto... Um daqueles que você manda poucas vezes na vida.
Ele caiu.
Foi um gancho bem no queixo e eu pude ver a cara dele indo pra trás enquanto respingos vermelhos, e agora não eram os meus, tocavam pela segunda vez o chão.
Os dois grandões me largaram e foram socorrer o comparsa ferido que descobri, pelos seus gritos, se chamava Neca.
Tentei levantar mais não consegui. Eu sábia que estaria perdido se não levantasse, mas não consegui. A verdade é que depois dos últimos acontecimentos em minha vida a vontade de me erguer realmente não era das maiores.
E eles vieram para o contra-ataque com força.
Proferiam chutes seguidos sobre o meu corpo inerte no chão.
Neca se levantava vagarosamente e vinha com o punho cerrado na minha direção. Os grandões me levantaram (a dor estava pior do que antes) e me seguraram pelos braços quando Neca, num único movimento, levou o seu braço direito para trás e me deu a maior dor física que já senti.
Quase desmaiei.
Eles me deixaram no chão e a última coisa que ouvi e vi foi à imagem de Neca indo embora sendo escorado pelos seus comparsas enquanto dizia: Deixa esse pela saco pra lá.
Se eu tivesse forças gritaria: ME MATEM IDIOTAS! Por que não me dão uma morte digna!
Não tive.
Mas que merda... Não se fazem mais bandidos como antigamente...

Dezesseis





Estou prestes a completar, quase, dois séculos e meio de vida e muitas das aspirações adolescentes que eu tinha não se concretizaram.
Engraçado como tudo parecia ser tão mais simples naquela idade. Ser o guitarrista de uma banda conhecida parecia um emprego tão próximo e as conseqüentes noites de bebedeiras e mulheres fáceis me pareciam uma ótima idéia.
Tudo seria devidamente assegurado por uma carreira estável no mundo da administração que me bancaria no inicio da banda... Até estourarmos e eu ser um ROCKSTAR!
Infelizmente os fatos não ocorreram exatamente como eu planejava.
Passei no vestibular pra administração, mas com quatro semanas descobri que odiava a carreira, todas as bandas que montei acabaram, trabalho hoje com jornalismo e passo as minhas manhãs, tardes e noites, se eu for contar com a faculdade, num lugar fechado, e as garotas fáceis se resumiram a um amor totalmente instável e não recíproco.
Bom, pelo menos a bebida não me abandonou.
Quem sabe daqui a algum tempo, com a retirada da minha carteira de motorista, eu possa começar uma carreira no mundo da moto velocidade.
Fazer algo meio Johnny Blaze e arriscar a vida saltando sobre helicópteros, carros e poços em chamas para uma multidão louca...
Aff
Olha eu viajando de novo...

Os maiores desde...




- Renato: Você não sabe nada eu sou a alma dessa banda!
-Van: Você esta louco um critico o elogia e você se acha Jimmy Page!?
-Renato: Você ouviu isso John?
-Van: John ele esta cego.

...e mais uma vez naquele dia os dois principais compositores da banda saíram discutindo de forma contundente um contra o outro. Já havia se tornado rotina na vida cotidiana do Power trio: Os Nilos.
O Guitarrista Renato e o Baixista Van, que tinha um sério problema com o seu nome verdadeiro Vandemberg, vinham tendo quase que uma queda de braço nas ultimas semanas pelo controle criativo da banda e a consequente vertente do rock para onde o primeiro cd dos nilos ia se direcionar.
Entre esses dois porém, havia John o baterista da banda que por melhor instrumentista que fosse, e ele realmente era, sábia que seria só mais um ótimo baterista fora da banda que tinha um potencial enorme com os seus dois outros integrantes.
Certa vez um fã da banda, que tinha pouco mais de seis meses, disse inclusive que o ego de Renato e Van era enorme, mais nada comparado ao dos dois juntos. Pura verdade, pois nos ensaios para o término das composições Renato sempre tentava dar a musica um sentido mais blues, colocando vários licks de guitarra desse estilo, enquanto Van insistia em fazer um baixo rápido e sem muitos rodeios típicos do rock mais voltado para o hardcore.
“... toda essa briga é típica de grandes bandas, relaxe...” diziam os amigos a John. Mais ele vivia a estafante rotina de ensaios e sabia que a coisa não estava fácil.
Seu dia começava por volta das 6 horas quando ele acordava para ir ao seu trabalho num famoso jornal carioca onde ele iria ter a sua matinal reunião de pauta, com os editores, e em seguida procurar as suas fontes para as matérias do dia. Ele não se enganava, era sem dúvida melhor jornalista que musico, mais esse sonho vinha lhe custando trabalhar em poucos finais de semana e sair sempre no horário, o que para um jornalista é mortal.
Os ensaios ocorriam durante três vezes na semana: segunda, quarta e sexta além do freqüente show de sábado. Tudo bancado por uma gravadora que ia produzir o primeiro cd dos rapazes que em pouco tempo, e sem mesmo ter gravado um disco, já tinham prestigio no meio por terem colocado quatro musicas num site, de divulgação de bandas, em que foram definidos por críticos musicais como a salvação do rock e por fãs como a banda mais revolucionária do gênero desde o Nirvana e o seu grunge de Seattle.
John sempre achou que todos esses elogios não podiam ser feitos aos Nilos pelo excesso de egocentrismo de seus integrantes. Ele sempre soube que isso ia acabar acontecendo um dia pelo talento de seus companheiros, mais que exatamente nesse ponto seria definido o futuro da banda.
Desde a primeira vez que tinha visto Renato sábia que ele era uma estrela, tocava guitarra como um bluseiro com alma de roqueiro, se é que isso é possível, ele sabia como ninguém o limite entre o virtuosismo e a chatice, entre a atitude no palco e o rótulo de poser. Resumindo... Ele tinha que entrar na banda.
Foi assim que depois de uma apresentação dos “Vulgares” (ex-banda de Renato), John foi ao camarim para convida-lo a integrar sua banda, que com o fim dos Vulgares alguns meses depois, teve toda a atenção de Renato.
Com Van tinha sido um pouco diferente, amigos desde a infância, o talentoso baixista tinha uma destreza no instrumento impressionante, mandava slaps como ninguém e tinha uma noção rítmica que faria Paul McCartney ter inveja no seu auge nos Beatles. Ele era a ligação perfeita entre as guitarras arrasadoras e o vocal “rasgado” de Renato com a sua bateria precisa.
Esses eram Os Nilos gênios, porém egocêntricos demais. Demais até mesmo para uma época em que existiam os irmãos gallagher do Oasis, os dinossauros do rock Rolling Stones e a impressionante Amy Winehouse.

Renato: John acabou.
John: como assim acabou.
Van: É como assim acabou, nem começou?
Renato: Pra mim chega. E sou maior que isso.
Van: Que seja, não preciso de você.

E no dia seguinte todos souberam do fim da banda que era a maior, a melhor e a mais surpreendente em muito tempo. Durante vários anos eles foram conhecidos como os ex-integrantes daquela que poderia ter sido uma banda grande muito grande, juntos, e que separados foram apenas bons músicos que fizeram um sucesso considerável e que sempre seriam conhecidos como os Ex-Nilos.

(Des)conhecidos





A mais ou menos um mês foi aniversário do meu grande amigo Digão.
Portador de uma personalidade definitivamente discreta ele optou pela, já tradicional, festa em casa para os parentes e amigos.
Depois de subir e descer um morro interminável, que a cada ano parece ficar maior, cheguei a casa dele e fui recepcionado pela sua mãe a Dona Mari, uma figura impagável.
Confesso que, às vezes, me divertia mais com a zoação de Dona Mari, sobre Digão, do que com as velhas piadas do meu amigo. Como aquela que Dona Mari faz questão de contar, toda vez que uma visita aparece, e que descreve a história de quando pegou o Digão dormindo no sofá de madrugada com a TV ligada num filme pornô. "O cara dormiu vendo o pornô!" era o que ela dizia no final entre um acesso de gargalhada e outro.

- Fala ae Raphael, beleza?
- Tranquilo cara. Meus parabéns e tudo de bom.
- Pô, valeu irmão.
- Trouxe até um presente pra tu.
- Putz, uma camisa do Zeppelin! Valeu mesmo cara.

Digão fez questão de me apresentar ao seu grupo de amigos um por um.
O estranho é que algumas pessoas ali eram meio conhecidas.
Pego meu ônibus matinal sempre no mesmo ponto, todo o dia, mais ou menos, na mesma hora e já me acostumei com algumas figurinhas que me acompanham no decorrer da minha espera pelo sensacional, rápido e fácil (esse comentário foi irônico) transporte público da baixada carioca.

- Esses aqui são meus amigos.
- Olá!
- Ei, você não é o cara das camisas engraçadas do ponto? (uma mulher perguntou)
- Cara das camisas engraçadas... (risos). É... Acho que sim... E vocês são o casal que vai pra Caxias.
- Isso!

Depois de uma meia hora de papo descobrimos que mesmo sem nos conhecermos criamos denominações próprias uns pros outros pela força do hábito de se ver todo dia no mesmo ponto de ônibus.
Lá estava o casal de Caxias, a Gostosa que vai pra Barra, o Militar da Vila e o Homem de cabelos brancos.
Pelo que me disseram eu era o cara das camisas engraçadas. Acho que devido a uma série de camisas estampadas por um amigo, que uso há algum tempo, e que trazem sempre uma mensagem original.
Passamos um longo tempo conversando e descobri mais sobre os outros...
É impressionante como criamos vínculos nas situações mais incomuns possíveis.

- Só tu mesmo Raphael pra dizer a garota que pensava nela como a “Gostosa da Barra” (risos)
- Ué, mas é verdade... (risos)
- Bom, por mais incrível que isso possa parecer eu acho que deu certo ela esta te dando meio mole.
- Ta doido? A gente só teve mais afinidade na conversa.
- Eu acho que não. Ela não para de te olhar.
- Hoje ela vai ficar só olhando então...
- Putz, me diz que isso não tem nada a ver com a menina da faculdade!
- Pois é...
- aff. Só pode ser sacanagem... Bom, se você não vai eu vou. Pode acabar com a minha Skol...

Trinta minutos depois ele teve o melhor presente que eu podia ter dado naquele aniversário: A Gostosa da Barra.



p.s.: As camisas estampadas são de verdade. Se alguém quiser é só deixar um coment com e-mail que eu passo o contato do cara que faz.

Esquinas





Pensar demais é um problema?
Bem, talvez qualquer um dos grandes filósofos da humanidade não definiria a palavra pensar como uma ação geradora de problemas, mas sim como uma forma de se conseguir indagações maiores e mais “relevantes”.

Quem é você para falar em nome dos filósofos?


As ruas passavam pela janela de forma rápida e uniformemente intrigante com as paradas em sinais e pequenas retenções.
O olhar dela estava fixo na janela, vazio como há muito tempo eu não via. Podia ser a febre, podia ser uma gripe... Que droga, podia ser apenas um olhar vazio...

Esta procurando respostas que podem não existir como os psicólogos que você tanto crítica!


Era estranho estar lá, falar um monte de bobagens e numa tentativa vã de chamar a sua atenção não ter muito êxito. Será que estou ficando tão óbvio assim?!

Essa é uma pergunta que você já se fez antes...

Pois é, talvez eu esteja sendo tão clichê em demonstrar algo, que é maior do que qualquer coisa que já senti, que esteja caindo num lugar comum que me parece intransponível.
Intransponível, pois não há um próximo estágio, não há um próximo passo, não há nem sequer mais um ato que eu possa realizar sem que eu mesmo não coloque a barreira que me foi imposta.

Que metáforas ridículas são essas, fale claramente...

Sabe aquela sensação de que você quer dizer algo, mas o seu bom senso (maldito bom senso) não deixa?
Foi algo mais ou menos assim...
É acho que foi...

Diz logo pra ela e vamos ver o que acontece!

Não depende de mim...

Idiota!

Quatro patas




Não sou um grande fã de animais. Sinceramente acho que eles dão muito trabalho, mas venho tendo cachorros há tanto tempo que não me imagino sem o meu.
Gosto especificamente dos labradores, pois o primeiro cão que realmente gostei era dessa raça e após a sua morte senti tanta falta que tive de conseguir outro da mesma cor e raça.
O engraçado é que o Yan (nome do meu atual cachorro) tem algumas particularidades muito interessantes. Desde que ele chegou a minha casa, com uns dois meses de vida, teve de conviver com um Cocker que apesar de na época ter mais ou menos o tamanho dele agora tem umas quatro vezes o seu peso.
O interessante disso é que como o criamos solto em casa ele perdeu um pouco da noção de seu tamanho, que acho ser, devido à convivência com o Cocker.
É estranho ver ele todo desengonçado andando pela casa com sua calda balançando que nos priva de gestos simples como deixar um copo na mesinha de centro. Ele seria sumariamente arremessado pelo Yan há uma distancia considerável com sua calda balançante.
Agora com cinco anos de idade ele tem uma noção maior de seu porte, mas quando ele tinha uns dois deixava um rastro de destruição por onde passava. Perdi as contas de quantos copos e pratos foram derrubados e de quantos alimentos perdemos por deixar a geladeira aberta que foram parar na pança do Yan.
Uma história que é lenda na família Oliveira até hoje ocorreu quando certa vez o Yan pegou um Chester inteiro, que estava em cima da mesa para o natal e passou como se nada estivesse acontecendo, na sala com a sua refeição na boca. Sentou no quintal colocou o chester entre as duas patas dianteiras e ficou olhando para o cômodo lotado com a cara mais sínica do mundo.
Naquele dia eu acho que se não tivesse segurado o braço de minha mãe ela teria atirado a faca de cortar o peru nele.
Apesar de tudo ele é um ótimo cachorro e gosto de sair na rua com ele.
Na verdade as pessoas dizem que ele que me leva para passear devido a sua força ao me arrastar pelos quatro cantos do bairro...