Atração




A cidade é o que há.
Tenho uma atração quase magnética por sua loucura.
Acho incrível perceber a pressa cotidiana e fazer parte dela.
Estar num dia ruim e andar depressa, mesmo sem estar atrasado, só para ter o prazer de dar uns bons esbarrões no meio da multidão até encontrar alguém mais nervosinho ainda e (quase) começar uma briga.
Gosto da “bipolaridade” que me deixa socialmente marginalizado por um dia. As pessoas me perguntam o que esta acontecendo e o meu sorriso, com um tom de desprezo, responde muita coisa.
Acredito que o estereótipo de estudante universitário que trabalha contribui muito para isso. Meus dias livres se resumem as noites de sexta e sábado, além do domingo; o único totalmente livre.
É claro que como admirador da loucura fiz questão de preencher as noites dessa pequena parte da semana com o vicio do álcool que me caiu muito bem.
É tão fácil pirar. Às vezes, acho que é exatamente para esse estado mental que estou caminhando.
Será que não é coisa demais?
Trabalho, faculdade, auto-escola, curso de inglês, vida social, noites etílicas...
Não largaria essa maluquice por nada. É bom ver tudo andando tão rápido e estar correndo junto. Tenho a impressão de não estar perdendo nada.
É curioso ver comentários maldosos no trabalho sobre aquilo em que você não é bom, é curioso ver como todos são contraditórios em suas próprias críticas e como os conflitos inerentes a tudo isso são maquiados em prol da manutenção de um emprego, ou seja lá como você quiser chamar.
A loucura da cidade me atrai.
Por mais que seja difícil de admitir gosto de ver o tempo passar dessa forma louca e corrida.

De cabeça pra baixo

















Não quero ser alarmista, mas alguém já parou pra pensar como tudo anda meio de cabeça pra baixo.

Meio de cabeça pra baixo é ótimo, não era melhor dizer de ladinho logo...


Na última quinta-feira quando sai de casa para cumprir minha rotina diária vi no meu trajeto, até o ponto de ônibus, um gato comendo, literalmente, um pombo morto.
Tentei privar meu pensamento da bizarra cena inutilmente. No decorrer de todo o dia aquela imagem de poucos segundos voltava e me fazia pensar.
Na volta para casa, lá pelas 22:30, não consegui me conter e durante o caminho procurei o tal gato. Acredite, ele estava agora um pouco mais a frente do lugar onde o avistei pela primeira vez, de manhã, ainda mordiscando a sua presa.

Talvez fosse um lanchinho rápido antes de dormir...


Vivemos num mundo onde o aquecimento global já é uma realidade;
Vivemos num mundo onde as mulheres dão em cima dos homens;
Vivemos num mundo onde as pessoas se lembram em quem votaram no último bbb, mas não nas últimas eleições do seu estado;
Vivemos num mundo onde a m... dos vira-latas nas ruas nos fazem andar pulando para desviar. Isso quando não pisamos;
Vivemos num mundo onde o jornalismo se rende aos salários pagos pela publicidade;

Vivemos num mundo onde gatos estão comendo pombos.

Circo do Vento






O circo do vento era definitivamente a atração mais esperada na cidade durante todo o mês.
Nós o chamávamos, na verdade, de circo do cata-vento por que cada criança que entrava ganhava um cata-vento a ser escolhido mediante a apresentação do ingresso. Naquela noite de julho a casa estava especialmente cheia não só pelas férias escolares, mas também por ser a única apresentação naquele mês do circo que partiria depois para uma longa temporada no Espírito Santo.
Toda a minha rua estava se programando para comparecer ao circo do cata-vento há alguns dias.
Já tinha tido a permissão de minha mãe e todos os meus melhores amigos iam: Digão, Bruno e Joana.
Como se tudo isso não fosse motivo suficiente fiquei sabendo, através da Joana, que Talita, a menina da rua de trás, também ia. Nada como um grande evento social para se ter a oportunidade da sua vida...
Às 18 horas estávamos todos devidamente arrumados na esquina para ir ao circo. Coloquei minha camisa listrada favorita e uma bela calça jeans que minha tia havia me dado. Ela formou um par perfeito com o All Star preto surrado que eu usava há alguns meses.
Fomos andando até o circo e compramos os nossos ingressos numa grande fila, que já se formava, na entrada. Joana fez questão de tomar a frente e pegar um cata-vento de cor amarela para mim quando na entrada nos ofereceram, devido ao meu daltonismo, que Digão e Bruno tinham esquecido, e por ser a cor preferida de Talita como ela me disse depois.
Fizemos questão de ficar nas primeiras filas da longa arquibancada de madeira que tomava todo o entorno do picadeiro. Depois de 20 minutos o dono do circo entra:

-Olá criançada!
-Quem gosta de mágicaaaaa?!
-Quem gosta de palhaçadaaa?!

Cada pergunta era respondida por todos no circo com um estridente eeeeeeeu!
O espetáculo foi, como sempre, sensacional. Equilibristas impressionantes, palhaços engraçadíssimos (como algumas pessoas podem não gostar deles?), domadores, fazendo truques com leões e elefantes, geniais e o mágico que sempre é o momento mais esperado.
Eu tinha um apreço especial com esse número por conhecer o mágico. O nome dele era Zippo e era amigo de infância do meu tio...
Quando os números acabaram a platéia toda se levantou e aplaudiu em uníssono os integrantes do circo que fizeram uma longa saudação agradecendo pela atenção e por terem comparecido.
Depois do grande espetáculo fomos direto para a tradicional festinha do circo num terreno ao lado onde já haviam sido montadas barraquinhas com jogos e comidas além de uma roda gigante que fazia juz ao seu nome.
Fomos os quatro para lá e Joana logo me apontou onde estava Talita quando a avistamos pela primeira vez. Era impressionante ver que mesmo com sua baixa estatura ela se destacava no meio das outras meninas. Era doce, delicada e linda em cada gesto. Mesmo quando um bombom seu caiu no chão e ela, como viciada em chocolate confessa, o pegou sem ninguém ver e o comeu.
A essa altura Digão já estava no concurso de quem come mais cachorros quentes e Bruno tietava os integrantes do circo que tinham o costume de ir para a festinha falar com o público depois do espetáculo.
Eu não conseguia tirar os olhos de Talita. Segurava o meu cata-vento amarelo na esperança de que ela olhasse para mim. Joana estava comendo uma maçã do amor e tentou me dar um empurrão:

- Deixa de ser idiota, vai lá.
- Tá doida. Ela nem sabe quem eu sou.
- Eu acho que isso é uma vantagem...
- Como assim.
- Ela não sabe o quanto você é estúpido então você pode enganar ela.
- Isso não é hora pra brincadeira Jo.

Fiquei lá parado como uma estátua. Imóvel.
De repente uma sombra apareceu do meu lado e não era Digão, uma hora dessas ele já tinha ganhado o concurso de cachorro-quente e estava empanturrado, muito menos Bruno que estava num papo, no mínimo estranho, com a mulher barbada e considerando que Joana estava do lado oposto me virei para ver quem era.
O homem alto que lá estava era a celebridade mais disputada da feirinha e veio falar comigo.
Era Zippo, o mágico.

- Ela é bonita né?
- Quem?
- Oras, a baixinha de cabelo enrolado que você não para de olhar.
- Esta muito na cara?
- Não, é por que eu sou mágico. (Soltando uma larga risada)
- Você não pode me ajudar com uma mágica? Você podia fazer com que ela sentisse o mesmo por mim.
- Sou muito bom garoto, mas nenhum mágico no mundo consegue interferir no livre arbítrio.
- Não quero interferir em nada. Só quero que ela me ame também.
- Você gosta de ver ela feliz?
- É tudo o que eu quero ver.
- Então isso deve bastar. Aquele rapaz que esta ali do lado é o namorado dela e ele é um bom garoto. Talvez a ame também.
- É? (tristeza)
- Sim. A pergunta é: A felicidade dela te basta.
- Sim.
- Então você encontrará alguém que não será igual, mas te fará muito feliz também. Talvez, quem sabe, ela esteja ao seu lado e você não vê...

Foi o que ele disse mais ao olhar em volta a única menina do meu lado era Joana, que estava dando uma grande mordida na sua maçã...