Aquelas três ou quatro palavras...




É impressionante como no carnaval tudo é mais intenso.
Sentimentos, brigas, relacionamentos, alegrias, tristezas e qualquer tipo de acontecimento que seja passível de ser levado de um mundo imaginário para a realidade.
Tudo bem, talvez não seja assim com todo mundo.
Talvez eu esteja mais uma vez sendo levado pelo meu romantismo idiota.
Mas isso não faz diferença, afinal de contas esse é o meu blog.
Há um sentimento torpe no ar, algo que faz com que todos pareçam estar, elegantemente, com pelo menos, alguns pontos acima do seu nível etílico normal.
Brigas se transformam em batalhas épicas, garotas são assediadas das formas mais explicitas possíveis e seus companheiros, mesmo sendo simples amigos, são obrigados a protegerem-nas das constantes investidas de caras que, às vezes, tem o dobro do seu tamanho.
Um olhar que num dia normal, no centro do Rio, diria “sai da minha frente que eu quero passar” se transforma num “acho que ela esta me dando mole” num bloco de carnaval no mesmo lugar.
Algumas situações que seriam bizarras em qualquer outra semana do ano se tornam usualmente comuns no carnaval. Homens saem às ruas “fantasiados” de mulher com vestidos, tops e saias enquanto as verdadeiras donas das roupas andam com uma pré-disposição a ficar com alguém que me impressiona.

Podia ser assim durante todo o ano. (Me refiro a pré-disposição das mulheres é claro)

Sempre me espanto com a facilidade, que alguns caras tem, em ficar com uma porrada de garotas numa única festa. Gostaria muito de saber o que eles dizem naquelas três ou quatro “palavras mágicas” proferidas no ouvido delas antes de beijá-las numa festividade.
Sempre levei algum tempo apara conquistá-las. Não por falta de pericia, eu acho, mas por ter um estilo definitivamente menos agressivo e mais sugerido. Confesso que devo ter perdido algumas oportunidades por isso.

Idiota!

Aquele sim era um grande time

Lembro-me como se fosse hoje das defesas de Dinei, dos bons passes dos laterais Amaral e Pará, da incrível noção de posicionamento dos zagueiros Paulo e Vandinho, dos gols cada vez mais bonitos de Feição, apelido dado para ressaltar suas características mais aparentes: a feiúra e a enorme boca, e de todo o resto do time que jogava de forma magistral em todo campeonato que disputava.
Esse era o time, da divisão de base, do Onze de Ouro. Um dos clubes de maior tradição no bairro.
Eu era o zagueiro reserva dessa fantástica equipe junto com Digão, meu companheiro de banco, que apesar de ser um cara muito querido por todos tinha o seu enorme sobrepeso como fardo para nunca jogar bem.
Meu nível técnico sempre foi mediano demais perto das façanhas que Paulo e Vandinho realizavam a cada jogo. Eles eram a dupla de zaga perfeita, por isso nunca tive muitas esperanças de ter oportunidades como titular em campeonatos grandes como o que estávamos prestes a disputar naquele mês em que todas as principais equipes da região iam jogar.
No tão esperado dia pessoas chegavam de todos os cantos da cidade aglomerando-se ao redor do pequeno campo onde os jogos iam ser disputados.
Meia hora antes tínhamos nos encontrado na casa do treinador para tomar um leve café da manhã e para pegar os uniformes dos profissionais do Onze de Ouro. Os mesmos que os nossos pais utilizavam nos jogos oficiais da equipe.
Porém, na preleção do treinador antes da pequena caminhada de 3 minutos até o campo, a falta do capitão e titular absoluto da vaga foi sentida.

-Onde esta o Vandinho?
Perguntou o treinador.
-O pai dele disse que já esta o trazendo de carro.
Disse Paulo, o companheiro de zaga e melhor amigo.

Mas quando Vandinho entrou pelo portão da casa ninguém conseguiu esconder a surpresa de vê-lo mancando escorado pelo pai.

-Vandinho o que aconteceu?
Perguntou o treinador
-Fui trocar uma lâmpada para minha mãe ontem e torci o pé quando cai da escada. O médico disse que só poderei jogar semana que vem.
-Você não jogará na estréia então?
-Não.

Naquele momento várias visões me assustaram: os rostos dos membros do time que pareciam crianças que acabaram de ser abandonadas pelos pais, o de Vandinho por só poder ter a chance de corresponder às expectativas na semana que vem e a de seu pai que não ia poder ver a estréia do filho no campeonato. Mas nada me surpreenderia mais do que o anuncio do treinador, após um interminável minuto de silêncio.

-Raphael você será o titular!
Atirando-me a camisa 4 enquanto sentenciava o meu fardo.

Alguns minutos depois estávamos chegando ao campo devidamente uniformizados. Era um belo uniforme amarelo com inscrições pretas. Uma em particular, apesar de pequena, sempre chamava atenção. Lia-se na gola: Bebedores por excelência jogadores por teimosia.
A tabela dos jogos naquele dia foi a primeira coisa que todas as equipes procuravam e ela mostrava que o nosso primeiro jogo seria o mais difícil da primeira fase: Onze de Ouro x Bug do Milênio, um clássico do bairro que era sempre mais disputado devido a uma velha rixa entre Vandinho e Alan.
Alan era o atacante do Bug que perdeu sua namorada para Vandinho dentro de uma famosa casa de show na cidade. Os jogos entre os dois times, desde então, sempre tiveram toques de clássico com porradas, faltas desleais e todos os ingredientes necessários para se fazer um grande jogo.
Tendo posto essas condições de jogo, adivinhem quem seria o substituto do Vandinho naquela manhã?
A pessoa que receberia toda a ira de meses acumulados de raiva por uma namorada roubada?
Aquele que só não seria morto se uma improvavel substituição pelo meu companheiro de banco Digão fosse efetuada?
Eu.
Tremia como um gladiador ao ser mandado para a batalha no coliseu de Roma lotado.
Entramos no famoso “campo do caroço”.
Lá a grama se resumia a um pequeno amontoado nas extremidades de cada canto e todo resto era composto de pura terra batida. Uma queda ali se traduzia facilmente em joelhos e mãos ralados, isso é claro, com muita sorte.
Ahh, e eu podia ver no rosto de Alan a avidez em me dar uma bela porrada e me deixar sem andar por uns bons dias naquele jogo. O olhar dirigido a mim era mortal e eu podia quase ler o pensamento dele: Hoje alguém vai pagar pelo que o Vandinho me fez e o escolhido foi você moleque.

(CONTINUA)

Exame





A locomoção rápida e prática é hoje essencial para qualquer pessoa que pretende se manter sã no meio de tantos percalços diários inevitáveis como o trânsito caótico, os ônibus lotados e as pessoas mal humoradas.
Foi por isso que, a mais ou menos um mês, resolvi tirar a minha carteira de motorista.
Pois bem, procurei saber quais eram as medidas necessárias a ser tomadas para oficializar o meu desejo perante a lei e fui surpreendido pelo custo total. Entre aulas, DUDA e clínica gastei praticamente toda a economia que vinha fazendo há quatro meses para dar entrada numa moto, já que paguei tudo à vista.
Depois de tudo certo iniciei a minha peregrinação. Primeiro na auto-escola, onde uma mulher muito enrolada me atendeu, e depois no DETRAN para fazer uma espécie de cadastro que levou mais de três horas para ser completado devido à fila imensa e a queda do sistema do próprio DETRAN. Nesse dia cheguei ao trabalho quase na hora do almoço.
Marquei ainda para a próxima semana dois exames que me credenciariam finalmente para o inicio das aulas teóricas: o psicotécnico e o oftalmológico.
O primeiro foi bem tranqüilo para mim. E alguns fatos me chamaram a atenção como as perguntas da psicóloga.
Eu estava numa sala com mais umas oito pessoas e ela perguntava para cada um coisas bizarras como se você bebia, fumava ou tinha algum problema psicológico de ordem mental. Será mesmo que ela achava que alguém fosse responder positivamente a alguma daquelas indagações?
Então chega a hora do exame oftalmológico, a única barreira que faltava transpor para enfim começar as minhas aulas.
Ao entrar na segunda sala me tranquilizei pelo fato da oftalmologista ser uma mulher. Elas são sempre mais compreensivas... Pelo menos se não estiverem de TPM...
A Dra. Elisa começou o exame mostrando aquelas letrinhas clássicas de qualquer exame oftalmológico numa espécie de microscópio onde eu tinha que colocar o olho. As letras estavam primeiro bem perto, depois a média distancia, longa e beeeeem longa.
Falei as letras sem exitar e passei com louvor, porém eis que veio a derradeira pergunta que eu tanto temia ouvir sair da boca da Dra. Elisa:

-Bem, agora vamos às cores?

Eu pensei. Juro que pensei em dizer: Dra. Elisa não vamos não, pois sou Daltônico e o meu problema me impede de enxergá-las com precisão.
Ao invés disso acalmei-me pensando: que isso cara, ela vai colocar um semáforo na sua frente e você só precisará dizer a ordem de cima pra baixo: vermelho, amarelo e verde. Moleza!
Tolo!
Quando eu aproximei o olho do “microscópio” descobri o que mais temia: ela colocaria as cores de forma aleatória.

-Que cor é essa?
-Verde
-Não é amarelo... E agora que cor é essa?
-v-ver-vermelho...
-Não, esta errado...

Dez segundos intermináveis se passaram até que a doutora quebrou o silêncio

-Você esta com o olho muito próximo das lentes. Afaste um pouco e ficara melhor.

Afasto os olhos e os esfrego

-É, deve ser isso doutora.

Aproximo de novo os olhos e começo a rezar, lá vai um chute daqueles. Minha vida a lá Born to be wild esta correndo sérios riscos...

-Agora, que cor é essa?
-Verde...
-Certo

Não acredito

-E essa?
-Amarelo...
-Exato

Sou o cara, a ultima é óbvia

-E essa?
-vermelho.
-Isso. Viu? Você só estava pressionando muito os olhos contra a lente.
-É deve ter sido isso mesmo doutora.

Que cara de pau!

Ela aperta um carimbo de aprovado contra o meu teste e me manda de volta para a auto-escola onde daqui a alguns minutos eu já estaria marcando as minhas primeiras aulas.

A batida




Tum ta ta Tum ta

Isso era tudo o que eu ouvia naquela noite.
As batidas ressoavam de algum lugar e eu podia ouvi-las claramente em minha cabeça. Era um som forte, compassado, esquizofrênico e parecia viciante de uma forma estranha, mas sedutora.
Conheço essa batida, mas de onde?
Saio para a rua e vejo uma marcha de pés precisos e olhares atentos.
Do céu aquilo deveria estar parecendo uma bizarra fileira para um formigueiro numa proporção muito maior.
Para onde está indo senhor?
-Ele aponta para a sua própria mão onde uma tatuagem com a letra S estava à mostra-

Tum ta ta Tum ta

Sr. S, por favor. Esqueceu-se das regras?
Que regras?
As regras do partido opressor vigente ora.
-É melhor não contrariar o louco-
Ah sim claro, me desculpe Sr. S.
Tudo bem Sr...
-Ele pega a minha mão onde uma letra R esta cravada-
...R estamos indo para a praça central. Para a festa do partido.
Ah claro, vou com vocês.

-Que m... de tatuagem é essa?-
Ao acompanhar a imensa multidão percebo que todos, que nela se encontram, também têm a marca na mão.

Tum ta ta Tum ta

Depois de dez minutos numa boa caminhada chego à praça central da cidade onde pessoas que saiam de todos os cantos se aglomeravam.
Aquilo era muito parecido com um formigueiro...
No canto da praça estava o palco para onde todos se viravam ao chegar e tentavam ficar o mais próximo possível. Era um palco imenso. Digno de um show dos Rolling Stones. No fundo havia um gigantesco telão que tinha, em letras garrafais, os dizeres: Mais uma vitória sua, mais um vitória do Partido Opressor.

-A batida ficando mais forte a cada passo que dava em direção ao palco-

Finalmente vejo de onde vinha o maldito som que estava ressoando por toda a cidade. Alguns metros a frente do telão havia um baterista tocando com verve a batida que reverberava.

-As luzes se apagam-


Sobe ao palco um senhor, com um contrabaixo nas mãos. Ele se intitulou Sr. K ao mostrar a marca em sua mão para o câmera e consequentemente para a multidão que o acompanhava.
O Sr. K pelo que entendi era o presidente eleito do partido e estava ali para fazer uma espécie de show da vitória.
Ele empunhou o baixo e começou a tocar as primeiras notas que foram seguidas por um urro de êxtase do povo e uma cara de surpresa minha quando finalmente reconheci a musica.

-Era “Climbing Up The Walls” do Radiohead-

É nesse instante que sobe ao palco uma mulher que passou pela segurança, imprudentemente, e foi agraciada pela ousadia com a permissão do Sr. K para dançar com uma piscada de olho para os seguranças.
Era a Srta. T como a mão que era focalizada no telão fazia questão de mostrar.
Ela estava a mais de cem metros de mim com algumas centenas de pessoas na frente, mas...
De repente simplesmente nada mais importou. O partido opressor (que nome mais sugestivo) que devia estar enganando a todos naquela cidade, a bizarra convergência de seres humanos dentro da praça, a música do Radiohead que reverberava feita só por baixo, bateria e voz, a tatuagem que apareceu sem nenhuma explicação na minha mão e toda aquela bizarra situação pareceu não existir mais.
Nada chamaria mais a minha atenção naqueles próximos instantes.
Ela estava com uma saia (daquelas de hippie) e uma camiseta preta, os cabelos curtos enrolados dançavam soltos no ar e parecia que o cheiro dela tomava conta de todo o ambiente. Dançava de uma maneira "graciosamente desajeitada", mas definitivamente linda. Era pequena na estatura, porém o telão fazia questão de mostrar o quanto ela era grande em sua perfeição na junção de cada parte de seu corpo, personalidade e charme.
Eu a gritei. Freneticamente a gritei quando finalmente pareceu, pelo menos em minha tola mente, que por um momento ela olhou pra mim. Por um milésimo de segundo eu acho que ela olhou para mim.
Naquele instante simplesmente nada mais importou...