Não quero ficar velho




Vou fazer 23 nesse mês, mas já faz algum tempo que respondo as perguntas sobre a minha idade com “quase 25”. É uma idade mais redonda e eu não preciso passar por um ano de incomodas piadinhas sobre os meus 24 anos.
Na verdade eu não quero ficar velho um dia.

Decidi isso ontem.

Acredito que posso fazer tudo o que planejo em uns 60 anos de vida. Minha lista é curta e inclui projetos pouco ambiciosos. Dentre eles posso citar o desejo de ser jornalista num veículo impresso respeitado, ter uma banda de quarentões, para tocar a minha velha Fender, na garagem da minha casa onde terei uma esposa e um filho.
Aí lá vem a fatídica pergunta: E a sua mulher e o seu filho, você vai deixá-los com apenas 60 anos?
Bom, primeiro eu parto do pressuposto de que não amarei minha mulher e sim a respeitarei.

Não acredito que um homem possa realmente amar mais de uma mulher na vida, então...

Eu a respeitarei o bastante para ser minha companheira pelo resto da vida e o meu filho terá uma gorda poupança que acumularei durante a minha carreira para possíveis despesas e emergências.
Acho que até lá terei que vender a minha moto e comprar um carro, já que não vou poder levar a minha mulher a eventos sociais, o meu filho a escola e os instrumentos da banda para bailes numa moto.

Quero plantar uma arvore sim, mas acho que não vou querer escrever um livro, então...

Se alguém quiser um dia escrever a minha biografia, fato que creio não irá acontecer, terá de fazer uma boa pesquisa nesse blog, pois pretendo mantê-lo por um bom tempo.
Há poucos dias atrás queria viver pelo menos até os oitenta, esperando por um telefonema, mas acabei de perder essa esperança então... Quando eu chegar lá pelos cinquenta começo a fazer um plano mais elaborado...

Mas, é só uma lembrança...



Sempre tive muito pouco contato com o meu pai.


Só tinha um momento no ano em que conseguíamos passar o dia inteiro juntos: na reunião do final de ano do Onze de Ouro, o time mais importante do bairro.
Todos os jogadores levavam os seus filhos para uma confraternização num sitio alugado pelo time e o dia era regado a muito churrasco, cerveja e refrigerante.
As atividades começavam pela manhã, ainda na cidade, onde todos se reuniam na já extinta padaria do Ivan. Lá os bebuns e seus respectivos filhos eram recepcionados pelo Carlinhos que insistia em comprar um monte de fogos todos os anos e soltar no dia da viagem para o sitio só pelo prazer de fazer barulho.
Tomávamos o café da manhã cedido gentilmente e de graça, que era o melhor, pelo Ivan e entravamos no ônibus para ir até o sitio.
Algumas histórias de lá foram impagáveis e acho que jamais vou esquecer como a vez em que o Bira, cabeça de área, quis passar o dia inteiro dentro da sauna e só foi acompanhado pelo cheiro de eucalipto e uma caixa de cerveja. Na saída ele era um cara magro com a maior pança de cerveja que eu veria na minha vida.
Ahh, e aquela quando revelei no sitio para o meu pai que estava namorando a filha do Zé, quarto zagueiro e melhor amigo dele.

Nunca vou me esquecer daquela situação.

Logo depois do meu comunicado ele virou lentamente (como no matrix, é como eu me lembro hoje) e gritou ao Zé que estava na churrasqueira:

- Zé!
- Fala cumpade!
- O Raphael ta comendo a sua filha! hahaha
- Que porra é essa meu irmão!?
- Sério! Hahaha

Acho que foi por isso que naquele dia o meu pai saiu com a perna toda ferrada, depois de uma entrada violenta do Zé no futebol, e duas semanas depois tive que terminar o meu namoro por que não conseguia mais vê-lá direito...
O fato é que o meu pai achava que esse dia do ano sempre compensou os outros 364 de quase total ausência.
Nunca liguei pra isso, as figuras paternas na minha infância sempre foram os meus tios que tinham algumas características bem destacáveis. Um era botafoguense fanático e outro tinha sérios problemas com bebida.

De repente isso explica os meus vícios mais evidentes hoje: o Botafogo e o álcool.

Já faz algum tempo que assino o meu nome excluindo a última parte que caberia a ele e isso me gerou uma ridícula insistência da minha mãe em levar-me a uma psicóloga.

Odeio psicólogos!

Por que eles acham que tudo tem uma explicação?
Por que eles acham que eu gostaria de uma maior aproximação com ele?
Será que nunca ocorreu a ela (psicóloga) que eu simplesmente não posso ter uma relação mais intima com alguém que eu pouco convivi e que não tem nada a ver comigo.

Não temos os mesmos gostos para absolutamente nada!

Bom, no final da viagem do sítio sempre voltava empanturrado de refrigerante e churrasco além de estar exausto de tanto jogar futebol.
Apesar de tudo aquele dia do ano sempre se tornava um dos melhores.
Mas, é só uma lembrança...


p.s.: essa minha foto ridícula, foi tirada numa festa caipira lá no sítio.

White music




O que me leva a gostar tanto de velharias?
Dizem que o termo certo, e mais “Cult”, é vintage...
Gostaria muito de ter um toca-discos e um armário cheio de LPs, gostaria muito de ter uma Moto custom do “arco da velha” totalmente modificada por mim e roupas legais como as que os caras do strokes usam.
Mudando de assunto... Um dia desses estava pensando: Putz, acho que algum cara morto lá na áfrica deve estar se revirando no tumulo agora.
Recentemente fui num festival de musica na Apoteose que trazia como atrações as bandas Kraftwerk, Los Hermanos e Radiohead.
Qual foi a minha surpresa quando eu me peguei no meio da arquibancada olhando em volta e percebendo que pelo menos 97% das pessoas no local eram brancas.
Eu era um negro num local, tradicional das escolas de samba, que estava sendo tomado por indies que iriam ouvir uma banda alemã de musica eletrônica, uma brasileira que tem um dos vocalistas em carreira internacional e outra inglesa que faz juz ao titulo de alternativa.
Definitivamente tive ma crise de identidade...
Pelo menos gosto de futebol, blues, samba e moro em Nilópolis (a terra da beija-flor)...