Chocolate, óculos e direito




Quantos livros um escritor precisa para começar uma carreira internacional?
Segundo o agente de Felipe ele teve um bom inicio com o primeiro livro que quebrou, a quase intransponível, barreira dos 50 mil exemplares vendidos no Brasil.

-Para um iniciante, no nosso país, isso é fenomenal.
-Sério?
-É. Se você escrever um bom segundo livro consigo lançar ele em Portugal e quem sabe também consigo algumas traduções em espanhol para a América do Sul.
-Isso seria ótimo.
-Claro que sim. Então do que você precisa?

Felipe não sabia do que precisava.
Desde o lançamento do seu primeiro livro vinha passando por um extenso bloqueio criativo e não conseguiu escrever uma página sequer desde então. Assim, ele pediu uma viagem para um lugar inusitado e que ninguém mais o perturbasse por algum tempo.
O agente ligou no dia seguinte dizendo que uma viagem para Pernambuco, no nordeste do Brasil, estava agendada e que se ele quisesse, para disfarçar, tinha até conseguido um emprego temporário num escritório de advocacia já que ele era formado.
O escritor não pensou duas vezes e arrumou as malas para a sua “nova-temporária” vida.
Depois de estar devidamente instalado numa pequena casa, que o agente havia lhe conseguido, Felipe colocou um bom terno e foi fazer uma caminhada de dez minutos até o escritório onde trabalharia nas próximas semanas.
Ao andar pelas ruas de Olinda Felipe pode ver como as pessoas lá eram estranhamente felizes. Uns velhos, no auge dos seus 60 anos, andavam em bicicletas rindo a toa ao vender os seus doces, as senhoras sentadas na varanda de casa jogavam conversa fora e todo aquele clima litorâneo parecia estranhamente entorpecente.
O nome do escritório de advocacia era Rubens & Jonas, pois os dois irmãos, amigos de seu agente como ele descobriria depois, tinham fundado a sala de espaço considerável no centro de Olinda.

Algum tempo depois...

O trabalho na Rubens & Jonas e o clima ameno de outono em Olinda estavam ajudando e Felipe realmente voltará a escrever.

-Alô Felipe!
-Alô, quem é?!
-O seu agente oras...
-Ah... Ei, realmente esta dando certo. Estou conseguindo escrever...
-Isso é bom cara, isso é muito bom.
-É sim... Fiquei amigo da nova estagiária lá no escritório e ela...
-Desculpe cara, tenho que desligar. Pode deixar que amanhã ligo pra você. Grande abraço e não largue esse pedaço de papel e esse lápis ein... haha

Felipe não conseguiu contar naquele dia onde estava a sua maior fonte de inspiração em Pernambuco.
Tácia era a estagiária do escritório, e ele sempre achava engraçado vê-la toda enrolada, atrás das pilhas de processos a serem organizadas, com seus óculos que por algum motivo tinham uma cor verde estranha.
Tácia dizia-se Pernambucana até o último fio de cabelo e era fanática pelas praias do local e o chocolate único de uma senhorinha que vendia seu produto na esquina seguinte a do escritório dos irmãos Rubens & Jonas.
Felipe não sabia como, mas de alguma forma ela o inspirava e as palavras saiam com muito mais clareza ou, às vezes, até eram pensadas sem muito sentido, mas com o seu esforço acabavam ficando boas.

-I ae Tácia mais uma pilha de processos hoje?
-Olha Felipe eu realmente amo o direito, por que pra passar por isso...
-Calma um dia você será recompensada.
-Será?
-Vou te contar um segredo.
-Uhn... Adoro segredos...
-Eu vim para cá por que precisava sair da minha rotina e conseguir evoluir na minha profissão.
-Mas a vida de um advogado é baseada rotina.
-Essa parte eu não posso te contar, mas eu acho que um dia você saberá.
-Saberei o que?
-...

Felipe não contou, mas anos mais tarde ela leu algo sobre um escritor que começava a fazer sucesso mundialmente com a história de seu segundo livro que estava sendo adaptada para o cinema.
O filme era baseado num conto de Felipe e o nome era “Chocolate, óculos e direito”.

1 comentários:

empirismoliteral | 7 de julho de 2009 10:16

É assim mesmo, a inspiração vem de onde ou de quem menos esperamos. e essas são as melhoras histórias!

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