Aquele sim era um grande time

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O técnico sabia que a minha única, e mais destacável, qualidade como jogador era a marcação. Por isso era compreensível a minha entrada no time no lugar de Vandinho, para uma marcação individual, mas tinha que ser logo naquele jogo e em cima do Alan.
Entramos e eu pude sentir o chão duro e arenoso do Campo do Caroço debaixo da minha chuteira.
Posicionamo-nos para dar inicio a partida.
Muitas pessoas se seguravam na grade, que envolvia o campo, e eu podia ouvir o murmurinho de expectativa que cercava o lugar. Parecia o coliseu de Roma e os súditos estavam prontos para gritar: Morte aos gladiadores!
O juiz que entrou em campo era o Neca. Ele vivia no bar e estava com uma camisa amarela apertada ridícula que mostrava a sua enorme barriga de chope cultivada com anos de cevada.

Todos riram alto quando ele entrou em campo e apitou o inicio da partida.

Imediatamente me posicionei perto de Alan.
Na primeira bola do jogo ele só pode ver a minha antecipação e o belo passe que dei para um chute perigoso de Feição.
Logo após o lance olhei para o meu pai, que estava atrás do nosso gol se escorando na grade, e percebi um sinal positivo com a cabeça seguido de um grito:

É isso ae Raphael!

Durante todo o jogo Alan teve muito poucas chances, pois no final das contas apesar de ele ser extremamente habilidoso e mais forte, eu tinha uma vantagem que foi decisiva: a agilidade.
Antecipava-me a cada bola com muita rapidez e atenção. Percebia a inquietude nele a cada jogada que se seguia e a cada grito do meu pai na beira do campo:

É isso ae Raphael!
O Alan ta fud...
Fica nervoso não ein por...!


Foi quando no segundo tempo numa batida de escanteio, em que eu estava mais uma vez o marcando, a bola estava viajando para a área e algo que parecia inevitável, e eu estava prevendo desde o anuncio da minha titularidade no jogo, aconteceu.
Até hoje eu posso visualizar, em slow motion, a bola vindo para a área e o cotovelo de Alan indo para frente e voltando com toda a força atingindo em cheio o meu nariz que imediatamente começou a sangrar.
Lembro de ver Neca, com sua camisa amarela na metade da enorme pança, vir correndo e expulsando Alan enquanto eu saia de campo escorado por vandinho, que entrou em campo para me ajudar, e era substituído por Digão.
Depois daquele jogo me tornei a principal arma do time para marcação e o treinador, às vezes, até me colocava como titular.
Quando o jogo acabou meu pai fez Alan me pedir desculpa e me pagou um refrigerante no bar enquanto ele tomava uma lata de cerveja. Ele olhava para mim e aquele foi um dos poucos momentos na minha vida em que realmente tivemos uma relação sincera de pai e filho.
Aquele sem duvida alguma foi o melhor jogo da minha vida e aquele sim era um grande time...

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