Quatro patas




Não sou um grande fã de animais. Sinceramente acho que eles dão muito trabalho, mas venho tendo cachorros há tanto tempo que não me imagino sem o meu.
Gosto especificamente dos labradores, pois o primeiro cão que realmente gostei era dessa raça e após a sua morte senti tanta falta que tive de conseguir outro da mesma cor e raça.
O engraçado é que o Yan (nome do meu atual cachorro) tem algumas particularidades muito interessantes. Desde que ele chegou a minha casa, com uns dois meses de vida, teve de conviver com um Cocker que apesar de na época ter mais ou menos o tamanho dele agora tem umas quatro vezes o seu peso.
O interessante disso é que como o criamos solto em casa ele perdeu um pouco da noção de seu tamanho, que acho ser, devido à convivência com o Cocker.
É estranho ver ele todo desengonçado andando pela casa com sua calda balançando que nos priva de gestos simples como deixar um copo na mesinha de centro. Ele seria sumariamente arremessado pelo Yan há uma distancia considerável com sua calda balançante.
Agora com cinco anos de idade ele tem uma noção maior de seu porte, mas quando ele tinha uns dois deixava um rastro de destruição por onde passava. Perdi as contas de quantos copos e pratos foram derrubados e de quantos alimentos perdemos por deixar a geladeira aberta que foram parar na pança do Yan.
Uma história que é lenda na família Oliveira até hoje ocorreu quando certa vez o Yan pegou um Chester inteiro, que estava em cima da mesa para o natal e passou como se nada estivesse acontecendo, na sala com a sua refeição na boca. Sentou no quintal colocou o chester entre as duas patas dianteiras e ficou olhando para o cômodo lotado com a cara mais sínica do mundo.
Naquele dia eu acho que se não tivesse segurado o braço de minha mãe ela teria atirado a faca de cortar o peru nele.
Apesar de tudo ele é um ótimo cachorro e gosto de sair na rua com ele.
Na verdade as pessoas dizem que ele que me leva para passear devido a sua força ao me arrastar pelos quatro cantos do bairro...

Não quero ficar velho




Vou fazer 23 nesse mês, mas já faz algum tempo que respondo as perguntas sobre a minha idade com “quase 25”. É uma idade mais redonda e eu não preciso passar por um ano de incomodas piadinhas sobre os meus 24 anos.
Na verdade eu não quero ficar velho um dia.

Decidi isso ontem.

Acredito que posso fazer tudo o que planejo em uns 60 anos de vida. Minha lista é curta e inclui projetos pouco ambiciosos. Dentre eles posso citar o desejo de ser jornalista num veículo impresso respeitado, ter uma banda de quarentões, para tocar a minha velha Fender, na garagem da minha casa onde terei uma esposa e um filho.
Aí lá vem a fatídica pergunta: E a sua mulher e o seu filho, você vai deixá-los com apenas 60 anos?
Bom, primeiro eu parto do pressuposto de que não amarei minha mulher e sim a respeitarei.

Não acredito que um homem possa realmente amar mais de uma mulher na vida, então...

Eu a respeitarei o bastante para ser minha companheira pelo resto da vida e o meu filho terá uma gorda poupança que acumularei durante a minha carreira para possíveis despesas e emergências.
Acho que até lá terei que vender a minha moto e comprar um carro, já que não vou poder levar a minha mulher a eventos sociais, o meu filho a escola e os instrumentos da banda para bailes numa moto.

Quero plantar uma arvore sim, mas acho que não vou querer escrever um livro, então...

Se alguém quiser um dia escrever a minha biografia, fato que creio não irá acontecer, terá de fazer uma boa pesquisa nesse blog, pois pretendo mantê-lo por um bom tempo.
Há poucos dias atrás queria viver pelo menos até os oitenta, esperando por um telefonema, mas acabei de perder essa esperança então... Quando eu chegar lá pelos cinquenta começo a fazer um plano mais elaborado...

Mas, é só uma lembrança...



Sempre tive muito pouco contato com o meu pai.


Só tinha um momento no ano em que conseguíamos passar o dia inteiro juntos: na reunião do final de ano do Onze de Ouro, o time mais importante do bairro.
Todos os jogadores levavam os seus filhos para uma confraternização num sitio alugado pelo time e o dia era regado a muito churrasco, cerveja e refrigerante.
As atividades começavam pela manhã, ainda na cidade, onde todos se reuniam na já extinta padaria do Ivan. Lá os bebuns e seus respectivos filhos eram recepcionados pelo Carlinhos que insistia em comprar um monte de fogos todos os anos e soltar no dia da viagem para o sitio só pelo prazer de fazer barulho.
Tomávamos o café da manhã cedido gentilmente e de graça, que era o melhor, pelo Ivan e entravamos no ônibus para ir até o sitio.
Algumas histórias de lá foram impagáveis e acho que jamais vou esquecer como a vez em que o Bira, cabeça de área, quis passar o dia inteiro dentro da sauna e só foi acompanhado pelo cheiro de eucalipto e uma caixa de cerveja. Na saída ele era um cara magro com a maior pança de cerveja que eu veria na minha vida.
Ahh, e aquela quando revelei no sitio para o meu pai que estava namorando a filha do Zé, quarto zagueiro e melhor amigo dele.

Nunca vou me esquecer daquela situação.

Logo depois do meu comunicado ele virou lentamente (como no matrix, é como eu me lembro hoje) e gritou ao Zé que estava na churrasqueira:

- Zé!
- Fala cumpade!
- O Raphael ta comendo a sua filha! hahaha
- Que porra é essa meu irmão!?
- Sério! Hahaha

Acho que foi por isso que naquele dia o meu pai saiu com a perna toda ferrada, depois de uma entrada violenta do Zé no futebol, e duas semanas depois tive que terminar o meu namoro por que não conseguia mais vê-lá direito...
O fato é que o meu pai achava que esse dia do ano sempre compensou os outros 364 de quase total ausência.
Nunca liguei pra isso, as figuras paternas na minha infância sempre foram os meus tios que tinham algumas características bem destacáveis. Um era botafoguense fanático e outro tinha sérios problemas com bebida.

De repente isso explica os meus vícios mais evidentes hoje: o Botafogo e o álcool.

Já faz algum tempo que assino o meu nome excluindo a última parte que caberia a ele e isso me gerou uma ridícula insistência da minha mãe em levar-me a uma psicóloga.

Odeio psicólogos!

Por que eles acham que tudo tem uma explicação?
Por que eles acham que eu gostaria de uma maior aproximação com ele?
Será que nunca ocorreu a ela (psicóloga) que eu simplesmente não posso ter uma relação mais intima com alguém que eu pouco convivi e que não tem nada a ver comigo.

Não temos os mesmos gostos para absolutamente nada!

Bom, no final da viagem do sítio sempre voltava empanturrado de refrigerante e churrasco além de estar exausto de tanto jogar futebol.
Apesar de tudo aquele dia do ano sempre se tornava um dos melhores.
Mas, é só uma lembrança...


p.s.: essa minha foto ridícula, foi tirada numa festa caipira lá no sítio.

White music




O que me leva a gostar tanto de velharias?
Dizem que o termo certo, e mais “Cult”, é vintage...
Gostaria muito de ter um toca-discos e um armário cheio de LPs, gostaria muito de ter uma Moto custom do “arco da velha” totalmente modificada por mim e roupas legais como as que os caras do strokes usam.
Mudando de assunto... Um dia desses estava pensando: Putz, acho que algum cara morto lá na áfrica deve estar se revirando no tumulo agora.
Recentemente fui num festival de musica na Apoteose que trazia como atrações as bandas Kraftwerk, Los Hermanos e Radiohead.
Qual foi a minha surpresa quando eu me peguei no meio da arquibancada olhando em volta e percebendo que pelo menos 97% das pessoas no local eram brancas.
Eu era um negro num local, tradicional das escolas de samba, que estava sendo tomado por indies que iriam ouvir uma banda alemã de musica eletrônica, uma brasileira que tem um dos vocalistas em carreira internacional e outra inglesa que faz juz ao titulo de alternativa.
Definitivamente tive ma crise de identidade...
Pelo menos gosto de futebol, blues, samba e moro em Nilópolis (a terra da beija-flor)...

Atração




A cidade é o que há.
Tenho uma atração quase magnética por sua loucura.
Acho incrível perceber a pressa cotidiana e fazer parte dela.
Estar num dia ruim e andar depressa, mesmo sem estar atrasado, só para ter o prazer de dar uns bons esbarrões no meio da multidão até encontrar alguém mais nervosinho ainda e (quase) começar uma briga.
Gosto da “bipolaridade” que me deixa socialmente marginalizado por um dia. As pessoas me perguntam o que esta acontecendo e o meu sorriso, com um tom de desprezo, responde muita coisa.
Acredito que o estereótipo de estudante universitário que trabalha contribui muito para isso. Meus dias livres se resumem as noites de sexta e sábado, além do domingo; o único totalmente livre.
É claro que como admirador da loucura fiz questão de preencher as noites dessa pequena parte da semana com o vicio do álcool que me caiu muito bem.
É tão fácil pirar. Às vezes, acho que é exatamente para esse estado mental que estou caminhando.
Será que não é coisa demais?
Trabalho, faculdade, auto-escola, curso de inglês, vida social, noites etílicas...
Não largaria essa maluquice por nada. É bom ver tudo andando tão rápido e estar correndo junto. Tenho a impressão de não estar perdendo nada.
É curioso ver comentários maldosos no trabalho sobre aquilo em que você não é bom, é curioso ver como todos são contraditórios em suas próprias críticas e como os conflitos inerentes a tudo isso são maquiados em prol da manutenção de um emprego, ou seja lá como você quiser chamar.
A loucura da cidade me atrai.
Por mais que seja difícil de admitir gosto de ver o tempo passar dessa forma louca e corrida.

De cabeça pra baixo

















Não quero ser alarmista, mas alguém já parou pra pensar como tudo anda meio de cabeça pra baixo.

Meio de cabeça pra baixo é ótimo, não era melhor dizer de ladinho logo...


Na última quinta-feira quando sai de casa para cumprir minha rotina diária vi no meu trajeto, até o ponto de ônibus, um gato comendo, literalmente, um pombo morto.
Tentei privar meu pensamento da bizarra cena inutilmente. No decorrer de todo o dia aquela imagem de poucos segundos voltava e me fazia pensar.
Na volta para casa, lá pelas 22:30, não consegui me conter e durante o caminho procurei o tal gato. Acredite, ele estava agora um pouco mais a frente do lugar onde o avistei pela primeira vez, de manhã, ainda mordiscando a sua presa.

Talvez fosse um lanchinho rápido antes de dormir...


Vivemos num mundo onde o aquecimento global já é uma realidade;
Vivemos num mundo onde as mulheres dão em cima dos homens;
Vivemos num mundo onde as pessoas se lembram em quem votaram no último bbb, mas não nas últimas eleições do seu estado;
Vivemos num mundo onde a m... dos vira-latas nas ruas nos fazem andar pulando para desviar. Isso quando não pisamos;
Vivemos num mundo onde o jornalismo se rende aos salários pagos pela publicidade;

Vivemos num mundo onde gatos estão comendo pombos.

Circo do Vento






O circo do vento era definitivamente a atração mais esperada na cidade durante todo o mês.
Nós o chamávamos, na verdade, de circo do cata-vento por que cada criança que entrava ganhava um cata-vento a ser escolhido mediante a apresentação do ingresso. Naquela noite de julho a casa estava especialmente cheia não só pelas férias escolares, mas também por ser a única apresentação naquele mês do circo que partiria depois para uma longa temporada no Espírito Santo.
Toda a minha rua estava se programando para comparecer ao circo do cata-vento há alguns dias.
Já tinha tido a permissão de minha mãe e todos os meus melhores amigos iam: Digão, Bruno e Joana.
Como se tudo isso não fosse motivo suficiente fiquei sabendo, através da Joana, que Talita, a menina da rua de trás, também ia. Nada como um grande evento social para se ter a oportunidade da sua vida...
Às 18 horas estávamos todos devidamente arrumados na esquina para ir ao circo. Coloquei minha camisa listrada favorita e uma bela calça jeans que minha tia havia me dado. Ela formou um par perfeito com o All Star preto surrado que eu usava há alguns meses.
Fomos andando até o circo e compramos os nossos ingressos numa grande fila, que já se formava, na entrada. Joana fez questão de tomar a frente e pegar um cata-vento de cor amarela para mim quando na entrada nos ofereceram, devido ao meu daltonismo, que Digão e Bruno tinham esquecido, e por ser a cor preferida de Talita como ela me disse depois.
Fizemos questão de ficar nas primeiras filas da longa arquibancada de madeira que tomava todo o entorno do picadeiro. Depois de 20 minutos o dono do circo entra:

-Olá criançada!
-Quem gosta de mágicaaaaa?!
-Quem gosta de palhaçadaaa?!

Cada pergunta era respondida por todos no circo com um estridente eeeeeeeu!
O espetáculo foi, como sempre, sensacional. Equilibristas impressionantes, palhaços engraçadíssimos (como algumas pessoas podem não gostar deles?), domadores, fazendo truques com leões e elefantes, geniais e o mágico que sempre é o momento mais esperado.
Eu tinha um apreço especial com esse número por conhecer o mágico. O nome dele era Zippo e era amigo de infância do meu tio...
Quando os números acabaram a platéia toda se levantou e aplaudiu em uníssono os integrantes do circo que fizeram uma longa saudação agradecendo pela atenção e por terem comparecido.
Depois do grande espetáculo fomos direto para a tradicional festinha do circo num terreno ao lado onde já haviam sido montadas barraquinhas com jogos e comidas além de uma roda gigante que fazia juz ao seu nome.
Fomos os quatro para lá e Joana logo me apontou onde estava Talita quando a avistamos pela primeira vez. Era impressionante ver que mesmo com sua baixa estatura ela se destacava no meio das outras meninas. Era doce, delicada e linda em cada gesto. Mesmo quando um bombom seu caiu no chão e ela, como viciada em chocolate confessa, o pegou sem ninguém ver e o comeu.
A essa altura Digão já estava no concurso de quem come mais cachorros quentes e Bruno tietava os integrantes do circo que tinham o costume de ir para a festinha falar com o público depois do espetáculo.
Eu não conseguia tirar os olhos de Talita. Segurava o meu cata-vento amarelo na esperança de que ela olhasse para mim. Joana estava comendo uma maçã do amor e tentou me dar um empurrão:

- Deixa de ser idiota, vai lá.
- Tá doida. Ela nem sabe quem eu sou.
- Eu acho que isso é uma vantagem...
- Como assim.
- Ela não sabe o quanto você é estúpido então você pode enganar ela.
- Isso não é hora pra brincadeira Jo.

Fiquei lá parado como uma estátua. Imóvel.
De repente uma sombra apareceu do meu lado e não era Digão, uma hora dessas ele já tinha ganhado o concurso de cachorro-quente e estava empanturrado, muito menos Bruno que estava num papo, no mínimo estranho, com a mulher barbada e considerando que Joana estava do lado oposto me virei para ver quem era.
O homem alto que lá estava era a celebridade mais disputada da feirinha e veio falar comigo.
Era Zippo, o mágico.

- Ela é bonita né?
- Quem?
- Oras, a baixinha de cabelo enrolado que você não para de olhar.
- Esta muito na cara?
- Não, é por que eu sou mágico. (Soltando uma larga risada)
- Você não pode me ajudar com uma mágica? Você podia fazer com que ela sentisse o mesmo por mim.
- Sou muito bom garoto, mas nenhum mágico no mundo consegue interferir no livre arbítrio.
- Não quero interferir em nada. Só quero que ela me ame também.
- Você gosta de ver ela feliz?
- É tudo o que eu quero ver.
- Então isso deve bastar. Aquele rapaz que esta ali do lado é o namorado dela e ele é um bom garoto. Talvez a ame também.
- É? (tristeza)
- Sim. A pergunta é: A felicidade dela te basta.
- Sim.
- Então você encontrará alguém que não será igual, mas te fará muito feliz também. Talvez, quem sabe, ela esteja ao seu lado e você não vê...

Foi o que ele disse mais ao olhar em volta a única menina do meu lado era Joana, que estava dando uma grande mordida na sua maçã...
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