Zack Deat - O mendigo







Era segunda de manhã e Zack Deat tinha acabado de levantar para ir até o trabalho.
Tomou banho, escovou os dentes e colocou o terno.
Dez segundos depois lembrou que ainda não tinha tomado o café da manhã e tirou o paletó para não manchá-lo com algum resquício de café ou um pedaço de manteiga desavisado.
Sentou-se à mesa pediu para que a esposa apresasse os filhos, que estavam atrasados para a volta as aulas.
Deixou-os na escola, a mulher na academia e partiu para a empresa.
Zack Deat gostava de dirigir ouvindo musica e durante o caminho pegou o primeiro disco que estava no porta cd e pressionou o play no rádio. O Unplugged de Eric Clapton iniciou, depois de uma primeira faixa instrumental, um blues com uma bela introdução que começava com Sir Clapton cantando:

“Before you accuse me, take a look at yourself
Before you accuse me, take a look at yourself...”

Ele foi cantando as musicas até chegar no estacionamento perto do trabalho. Saiu do carro, deu bom dia para o guardador e foi comprar mais um café antes de entrar no prédio e iniciar os trabalhos.

-Bom dia.
-Bom dia senhor Deat. O de sempre?
-Sim, por favor.

A mulher fez o tradicional café pingado com cafeína extra que Deat sempre pedia

Depois de pegar o copo Deat começou a caminhada de três minutos até o trabalho quando foi abordado por um senhor maltrapilho que por ali passava.
Olhou o velho, que tinha vestimentas que exalavam um terrível fedor e quase deixou o copo com café cair ao vê-lo mostrar os dentes amarelos como sinal de simpatia.

-Posso ajudar?
-O senhor não poderia pagar um café para um velho que viveu invernos demais?
-Infelizmente estou com um pouco de pressa para chegar no trabalho...
-Ora essa. É só um café.
-Ok Tome o meu.
-Muito obrigado senhor...
-Deat.
-Obrigado senhor Deat.

Zack Deat chegou no prédio e logo que entrou na sua sala e sentou em sua poltrona reclinável teve certeza que tinha achado a próximo alvo da sua “bricadeirinha”.
Durante dois dias passou pelo mesmo lugar e deu o seu café para o senhor que continuava pedindo o seu pingado.
No terceiro resolveu que faria a traquinagem logo após o trabalho só que dessa vez o velho de dentes amarelos iria ter uma surpresa.
Passou, como já tinha virado tradição, o dia ansioso quando finalmente resolveu ir embora mesmo sem ter terminado todas as tarefas do dia. Apressou o passo e ouviu o seu nome sendo chamado algumas vezes antes de entrar no elevador.

-Senhor Deat o relatório...
-Senhor Deat a empresa do EUA ligou e...
-Senhor Deat...
-Senhor Deat...
-Senhor Deat...

Olhou para o relógio no pulso:19:00.
Quando chegou no local viu o velho deitado num canto da rua acompanhado pelo seu fedor e por um cachorro que só tinha pele e osso.
Cutucou-o com o pé e o velho levantou a cabeça soltando mais uma vez o horrendo sorriso podre.

-Senhor Deat?
-Sim. Como vai?
-Não tão bem quanto senhor, mas vou indo.
-Trouxe algo para você.
-Um presente?
-Sim. E depois ainda vai ter uma brincadeirinha... Quer dizer, uma surpresinha.

Deat puxou uma garrafa de Whisky Johnny Walker, que custou 300 reais, e entregou para o velho que logo começou a beber o liquido no gargalo da garrafa.
Deat já ia atravessando a rua quando o velho gritou:

-Hey. E a surpresa?
-Virá depois. Por enquanto vou deixá-lo com o meu amigo Johnny.

O velho levantou a garrafa como se brindasse e o deixou ir

Deat atravessou a rua e ficou encostado na pilastra esquerda do estacionamento mesmo depois de ter pegado a chave do carro.

Ele sabia que logo... Logo... A brincadeira ia começar

Após cinco minutos começou a ver alguém se aproximando do velho e logo os gritos de horror do outro lado da rua começaram. Uma senhora desesperada gritava como louca, um rapaz tentava chegar perto do velho para ajudar, mas a sua repulsa era evidente.
Aos poucos as pessoas iam se chocando cada vez mais.
Deat finalmente atravessou de novo e viu como estava o velho.
Suas roupas estavam cobertas de sangue que era jogado, através de jatos, a cada golfada do liquido vermelho que saia de sua boca. A senhora gritou mais uma vez “Alguém ajude ele!” enquanto o velho saiu andando na direção de Deat, mas antes de chegar caiu.
Tentou levantar a voz e culpar o seu algoz, mas sua boca ensangüentada não teve força suficiente.
Numa última, e vã tentativa, saiu correndo, porém errou a direção em que Deat estava e foi direto para a rua onde um caminhão que passava na hora espalhou os pedaços do velho para a plateia que horrorizada assistiu a tudo.

Mais tarde em casa...

-E como foi o trabalho hoje querido?
-Como sempre... Nada de novo. Só mais um dia.
-São pessoas empreendedoras como você que movem esse pais Zack. Por isso tenho orgulho de você.
-Obrigado amor.


Obs: A foto desce post foi retirada do site www.desciclopedia.org

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