Na fila

O mendigo tinha parado para pensar enquanto esperava a sua sopa na fila...

Por que vivia nas ruas de forma tão simplória? Tinha consciência de que não era uma má pessoa, mas mesmo assim as coisas na sua vida não haviam dado certo.
Era um ex-empresário que foi obrigado a ver o próprio empreendimento afundar na última crise mundial. Onde estava o Deus protetor do capitalismo quando ele mais precisou, para onde foram os investidores, os consumidores, o capital?!
Sentou e lembrou das palavras de Darwin que afirmava algo óbvio, mas que o mendigo só estava compreendendo agora. Lembrava de Darwin dizendo que a luta pela existência, que os economistas celebram como sendo a maior conquista histórica do homem, constitui exatamente o estado natural do reino animal.
A cultura de massa é por si só autodestrutiva.
A valorização do consumo e da propriedade privada não nos deixa colocar o bem social em primeiro lugar. O capital é tão egocêntrico que não consegue ver os sinais de alerta, que o próprio sistema dá, como o Crack que sempre acontece na economia mundial a cada dez anos.

Faltava pouco para chegar a vez do mendingo pegar o copo de sopa quente na gelada noite...

Talvez a famigerada especialização fosse um forte fator para a desigualdade. Pensamos tanto especificamente que esquecemos de pensar globalmente.
Há tempos atrás as coisas pareciam ser um pouco mais simples, alguns dos grandes homens da humanidade não tinham uma só profissão. Da Vinci não era só um grande pintor, mas também era um grande matemático, mecânico e engenheiro.
Só uma produção consciente, em que se pense no todo, pode elevar os homens a uma ascensão sob o ponto de vista social sobre o resto do reino animal.
É o que nos diferencia... Acho que foi ai que errei...

Próximo!

-Olá senhor boa noite.
-Boa noite.
-Aqui esta a sua sopa.
-Obrigado.
-Bom Mc dia feliz para o senhor.

Ao sair da fila com a sopa o mendigo olha para cima do lugar e vê o M amarelo gigante com os dizeres: Mc dia feliz uma iniciativa do Instituto Ronald Mcdonald para ajudar os mais necessitados.

Boa noite




Sentado na sua prancha Juan olhava o mar.
De olhos fechados e de frente para o horizonte ele podia ouvir o som que o água fazia batendo contra as pedras na parte perigosa da praia onde as ondas quebravam de forma assustadora.
Julgou-se amaldiçoado e abençoado por estar num local tão bonito, mas que parecia tão melancólico.
Virou-se para a parte pedregosa, sentiu as gotas da água salgada no rosto e esfregou os olhos indo então, a largas braçadas, na direção da próxima onda.
Ela veio e ele nadou até ficar em pé.
Era o único momento em que Juan conseguia estar só com ele mesmo sem a intromissão inoportuna dos seus pensamentos. Não havia mais nada além dele e o mar, nada mais entre ele e o céu, nada mais entre ele e ele mesmo.
O grande problema era que até mesmo a onda impunha uma condição cruel a Juan logo após os seus momentos juntos: à volta a realidade quando ambos chegavam a areia.
Fincou a prancha, daquele jeito que só os experientes surfistas conseguem fazer, e se sentou ao lado da companheira para tomar uma cerveja.
Tinha o pensamento distante e a vida complicada pela própria ilusão. Jogou um vago olhar para a montanha, ao seu lado esquerdo, e viu os carros voltando para a cidade como que dizendo: Final de tarde... Hora de voltar à realidade.
Devolveu a prancha alugada ao hippie, com nome de Beatle, Harrison, tomou um banho gelado para tirar o sal do corpo e depois de terminar mais uma cerveja, colocar uma bermuda e uma camisa ligou a moto para ir embora.
Acelerou, subiu e desceu o relevo antes de cair numa pequena estradinha que levava a avenida principal.
Sentiu o cheiro de gasolina e de pneu queimado típicos dos carros, mas não se importou por que os seus pensamentos mostravam um único odor.
Guardado em sua mente deixava uma torpe alegria figurar no rosto que era seguido pela aflição e agonia que o abatiam sempre que dirigia.
Gostava da estrada por que ela lhe trazia boas lembranças que variavam entre sorrisos e as bobeiras inventadas para vê-la até a inivitavel verdade ocorrer.
Acelerou um pouco mais e foi cortando os carros até chegar em casa numa cidade do subúrbio para mais uma noite. Mais uma noite com um computador e livros do amigo de Marx: Friedrich Engels...

Contagem

No cabo de guerra...

-Ok. Todo mundo concentrado...
-Sim!
-Quando eu contar até três nós puxamos.
-Sim senhor!
-Essa é a final. Não vamos dar mole.
-Sim senhor!

Os comandados esperavam o inicio da contagem quando o capitão disse:

-Três!

Três segundos depois todos estavam no chão...

Não presença

Era uma dia comum como qualquer outro. Não era feriado e nenhuma data importante estava próxima.
A noite se anunciava e eu andava com aquele que viria a ser um dos meus melhores amigos quando a vi sentada no banco.
Começou a falar com meu companheiro sobre a prova recém feita.
Não sou tão pretencioso a ponto de dizer quanto ao mundo, mas com certeza absolutamente ninguém naquele corredor estava mais dislumbrado do que eu.
Vivo num lugar onde uma das sete maravilhas do mundo moderno se faz presente, mas admito que comparar com ela era algo desleal.
Desleal em todos os sentidos, pois o que mais poderia ser tão natural?
Só quem um dia a viu subir ou descer uma escada com o seu vestido a sorrir sabe do que eu estou falando.
Ela se caracteriza em cada gesto meio desengonçado, leitura de livro ou risada meio estranha que dá.
Gosto quando ela mexe no cabelo bagunçando-o e, mostrando que tem total controle, cinco segundos depois o coloca no mesmo lugar de antes com um simples balançar de cabeça.
Me divirto quando ela senta e tem uns tremiliques devido ao frio ou a outra situação externa.
Adoro quando ela mexe na orelha alheia só para perturbar e morro de rir quando ela tropeça e solta um "ai" me presenteando logo depois com um sorriso.
Hoje tenho que aprender a viver com a sua ausência, ou melhor, ausência não, pois de algum jeito tenho guardado o seu cheiro e o seu sorriso comigo... Hoje sou obrigado a aceitar a sua não presença...

Brincadeiras do capital

No RH de uma empresa...

-Olá
-Olá Doutor Hugo como vai?
-Bem obrigado. Você pode demitir esse funcionário para mim?
-Sim Doutor Hugo
-Obrigado
-Desculpe, mas o senhor pode me dizer o motivo?
-Estou relembrando os tempos de criança com uma brincadeira...
-Qual?
-Estou rodando peão.

Desculpas

Na rua...

-Posso perguntar uma coisa?
-Sim
-Por que você não gosta de mim?
-Eu gosto
-Entendi, mas não o suficiente...
-...
-Ein?!
-Desculpe
-Você se desculpa demais sabia...
-Pois é. Definitivamente não sou o melhor cara. Desculpe.

Reino do ser

Numa terra assolada por conflitos a esperança parecia ser algo cada vez mais raro a cada dia que passava. Muito preocupados os três principais reinos do ser foram convocados a fazer a próxima conferência, em cinco anos, para dar conta do assunto.
Faziam-se presentes à mesa o reino da tristeza, da felicidade e o do ego.
Todos concordavam que algo tinha de ser feito para a manutenção do ser. O assunto era complicado e a pauta extensa, mas o ego com a sua pró-atividade tomou a palavra:

-Não quero parecer intrujão, mas vocês devem me deixar trabalhar. Confiem em mim. Eu dou conta do recado.

A felicidade riu e questionou os fracos argumentos do ego que podia se agigantar de uma tal forma que não perceberia o que podia haver em volta.
A tristeza retrucou:

- Vocês estão cegos. As maiores criações artísticas já feitas pelo homem foram concebidas em momentos de tristeza profunda. Perguntem para músicos, poetas, pintores ou a qualquer ser apaixonado.

O ego se impõe e levanta a voz se exaltando e dizendo:

-Você esta louco!
-Não meu amigo o reino da loucura não veio hoje.
-A tristeza não sabe o que esta dizendo. Ela mesma gera como condição primordial para a sua existência atos extremos que levam o ser a ter mudanças bruscas de atitude.

Nesse ponto chegam os capitães da Dialética e da Retórica de cada reino fazendo o embate se acirrar, pois davam conselhos a cada um de seus representantes.

Felicidade: Sou eu quem lhe da os melhores momentos da vida, sou simpático e faço com que ele consiga beber e se dar bem com aquelas poucas mulheres...

Ego: Com aquelas e não com a única que ele queria. Você não tem capacidade de argumento...

Tristeza: E é por vocês não chegarem a um consenso que ele continua assim e eu tenho estado mais em evidência. Nem sabem se ela acreditou realmente nesse amor tolo...

Felicidade: Você...
Tristeza: É um...
Ego: Idiota!

Ok chega! Disse o ser para dar um ponto final no assunto.
Proponho um revezamento entre os reinos até chegarmos a um consenso e então nos reunimos de novo para ver no que vai dar.

Felicidade: Beleza.
Tristeza: Vou tentar.
Ego: Vai ser moleza.

Então o ser deu por encerrada a reunião até o próximo semestre apelidando aqueles próximos seis meses de revezamento entre os reinos de BIPOLARIDADE.
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