O camponês



O camponês se sentou na escada que precedia a entrada da casa e olhou para a plantação destruída pelas recentes chuvas.
No final das contas aquele não tinha sido um ano de tanta má sorte. As colheitas em geral tinham sido boas e o preço do trigo, produto que era plantado em pequena escala na fazenda, tinha dado retorno suficiente para que ele conseguisse se manter.
O ano tinha sido tranquilo, mas a imagem da plantação perdida deixava um vazio no coração do fazendeiro. O camponês amou pouquíssimas coisas ao longo de sua vida além de família, musica e livros...
Gostava de verificar cada lado da pequena plantação que garantia o seu sustento ao longo do ano. Uma sustentação que mantinha muito mais que as finanças, era a alma e o coração de um matuto que estava em jogo.
Quando ia para a cidade via as grandes plantações de café, vizinhas a sua, lotadas de maquinas que cuidavam de uma área dez vezes maior que a sua num tempo menor do que ele mesmo levava para verificar a própria.
Era o que o irmão do camponês, que estudava numa boa faculdade em outra cidade, chamava de “mal inevitável do capital”.
Estudos e palavras complicadas a parte o camponês resolveu distrair a cabeça e dar uma passada pela tradicional festa na praça da cidade. Colocou sua melhor calça, uma bela camisa xadrez e saiu com a velha caminhonete.
O lugar se encontrava consideravelmente cheio e logo que estacionou pegou uma cerveja numa das barracas e pôs-se a andar pela praça dando pequenas goladas na lata de tempo em tempo.
Passou pela extensa fila da roda gigante, viu as crianças tentando a todo custo acertar uma pilha de garrafas para garantir um brinde numa barraca e parou em frente ao concurso de quem come mais milhos que logo ia começar.
Tomou mais um gole da cerveja e viu que uma garota trajando um vestido de bolinhas tinha parado ao seu lado.

-Eu adoro milho... (disse ela)
-Confesso que não sou um grande fã
-Não sabe o que esta perdendo. É muito bom.
-Por que você não esta participando então?
-Apesar de você não achar eu sou menina né...

Risos

-Eu... Eu não disse nada
-Estou brincando...
-Bom eu votaria em você para o de garota primavera que acontecera daqui a pouco.
-Sério?
-Uhun
-Então vou concorrer...

O concurso do milho começa e todos se viram para prestar atenção. Nada de novo e como já era esperado o gordo barbudo, que estava sentado na extrema direita, ganha com alguma facilidade.
O Camponês olha para o lado e a menina de vestido de bolinhas tinha sumido.
Ele compra mais uma cerveja e se põe a andar um pouco mais até que percebe um alvoroço ao redor da passarela do concurso de garota primavera.
Para ao lado de um senhor e observa as garotas entrando uma a uma na passarela até que a menina de vestido de bolinhas entra

...

O camponês quase deixa a cerveja cair e fica com os olhos fixados no sorriso e no balançar dos cachos que desfilavam pela pequena passarela que parecia totalmente proporcional a estatura da garota.
Cada passo parecia tão lento quanto as palavras do velho ao lado que comentava: Que garota desengonçada....
Sem dar ouvido ao velho ranzinza o camponês votou na garota de vestido de bolinhas que acabou vencendo no final.
Fez questão de vê-la recebendo a faixa, os abraços da família e o beijo do marido antes de entrar na caminhonete para voltar à fazenda.
Sentou-se ao volante ligou o rádio e ficou pensando na plantação do ano que vem, mas acima de tudo na garota de vestido de bolinhas que tinha saído da sua cabeça, mas ficado no seu coração.
Queria muito que tivesse tido um desfecho diferente, mas não dependia dele e a lembraça seria tudo o que ia lhe restar com o tempo.

0 comentários: