Zé Alguém

José era analista contábil a mais de dez anos e isso nunca o incomodou.
Gostava de trabalhar com números e eles nunca o traíram. Matemática é uma ciência exata e não da margem a muitas opções: ou é isso ou não é.
A empresa onde trabalhava valorizava isso e lhe deu um cargo, com um bom salário, uma sala espaçosa e uma poltrona reclinável que ajudava com as suas constantes dores de cabeça.
Sempre que iniciava o expediente sentava na poltrona e jogava o corpo para trás pensando em coisas que importavam: o trabalho, sua casa, seu cachorro e a sua noiva que tinha ganhado a alcunha no dia anterior.
Perguntou a si mesmo por que gostava dela e não obteve uma resposta de seu subconsciente.

Mais que droga. ele nem podia dizer a si mesmo que a amava!

Levantou-se dizendo que as dores de cabeça estavam insuportáveis e requereu dispensa junto ao superior. Seu pedido foi atendido prontamente, devido ao seu histórico de bom funcionário que raramente ficava doente, e lhe foram concedidos três dias de descanso.
Foi para o estacionamento, ligou à moto Harley-Davidson e enquanto ia para casa começou a imaginar como seria a vida daqui a algum tempo. A moto não seria mais o seu veiculo de transporte principal. Se tinha uma coisa que a sua garota... namorada... noiva... Mulher não gostava era de sua moto.
Ela sempre dizia: José essa coisa foi feita para cair. Largue essa moto e veja a lei da gravidade agir... Só tem duas rodas!
Ele é claro fazia a velha piada: deixando-a no descanso, dizia que gostava de desafiar as leis da gravidade e lhe dava um abraço.
Estacionou a moto na garagem de casa, pegou um café e sentou em frente a TV.
A reportagem do dia falava sobre os inúmeros pontos turísticos que haviam na estrada que liga o seu estado ao vizinho.
Era um sinal. Não pensou duas vezes e ligou para sua noiva.

-Como assim vai viajar!? Pra onde?!
-Só quero aproveitar que não trabalharei nos próximos dias
-Aproveite comigo?!
-Você não entende. Eu só quero aproveitar alguns dias com a minha moto
-Sua moto?! E ainda por cima vai correr risco de vida?!
-Eu te ligarei todo dia... Tchau
-Não ouse desligar na minha c...

tu tu tu tu

Colocou a mochila nas costas logo pela manhã, pegou algum dinheiro no banco, encheu o tanque no posto de costume e começou a dirigir pela estrada.
O asfalto serpenteava até onde a vista podia alcançar e José conseguia ver no horizonte os caminhões que pareciam entrar dentro do sol que estava nascendo.

O calor deve estar forte por lá...

Era engraçado notar como em cada posto os caminhoneiros iam se levantando dos lugares mais improváveis possíveis para voltar a dirigir. Um saiu de baixo do veiculo, outro se recostava junto à carga de galinhas enquanto um terceiro acordava dando dinheiro para uma prostituta tão gorda que podia facilmente comer toda a sua carga de chocolate em poucos dias.
Fez três paradas naquele dia. Duas para comer, almoço e janta, e outra para visitar uma cidadezinha interiorana de onde ligou do celular enquanto tomava uma cerveja.

Tuuu tuuu tuuu

-Alô
-...
-José é você?
-...
-Me responda. Eu sei que é você.

tu tu tu tu

José não sabia por que simplesmente não tinha respondido, queria dizer uma palavra a mais que fosse mudar o que a distancia faz, mas... Nada... Só nada...


(Continua)

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