Zé Alguém (Parte 2)

Com a estranha ligação na cabeça José dirigiu a sua moto até o principal bar da pequena cidade.
Entrou e sentou-se na última mesa do local pedindo mais uma cerveja para a garçonete enquanto dava uma espiada nos tipos de caipira que habitavam no local.
Um senhor careca, daqueles que tem um resquício de cabelo em cada lado da cabeça, jogava sinuca com um jovem apostando a cerveja que estava à espera na ponta da mesa, uma bela moça de vestido beijava o namorado de forma quente na outra extremidade enquanto um rapaz moreno de cabelo enrolado tocava algumas músicas acompanhado por um violão no palco.
José não pode deixar de notar que o músico olhava para uma moça magra de cabelos longos que estava sentada numa mesa próxima ao palco com uma amiga e seu acompanhante.
Já estava na quarta garrafa de cerveja quando a mulher de cabelos longos sentou-se no bar sozinha. Levantou e foi falar com ela.

-Olá
-Olá
-Desculpe, mas não pude deixar de notar que você se afastou da mesa em que sua amiga esta
-Ela parece estar meio ocupada com o namorado dela... Se é que você me entende...
-Uhun. E o músico que esta no palco e te olha de um jeito tão diferente
-É uma história meio complicada
-Eu também tenho uma... Quer conversar?

Durante à hora seguinte José soube um pouco da história da moça e do cantor do bar. Ela ia se casar daqui a alguns meses, mas continuava sentindo algo pelo rapaz do palco que dizia que sempre a amaria.
A moça disse que ele era estranho: que a amava num dia, e isso transbordava dele, enquanto no outro não conseguia olha-lá nos olhos.
Saiu do bar depois de ter contado a sua história para a garota lá pelas uma da manhã. Não se importou com a pequena embriaguez, já que estava sem nenhum sono, e pegou a estrada de novo.
Pensou no quanto devia ser difícil a situação do músico que via a mulher que mais amava indo embora e o relacionamento com ela se deteriorando aos poucos pelas constantes variações de humor.
Talvez um dia ele simplesmente não fosse mais a ver e ela continuaria rondando os seus pensamentos... Talvez pudesse ser pior, talvez eles se vissem um dia e um fingiria que não conhecia o outro. Só o que denunciaria seria o coração disparado do rapaz quando sentisse o cheiro da moça...

Que fardo!

Deu graças por ter a sua moto, uma estrada e uma mulher que o amava. Três coisas que até então nunca tinham o decepcionado.
Talvez esse fosse um bom motivo para ama-lá. Ela gostava o suficiente dele para dizer isso então...
A madrugada na estrada era ótima. Vazia, e só ele parecia estar lá vendo os postes passarem um a um com as suas luzes ofuscantes.
Fechou os olhos durante dois segundos para sentir o vento frio da estrada quando a moto derrapa e ele cai ficando desacordado.

Três horas depois José acorda

Retomou a consciência e percebeu o que tinha acontecido. Primeiro mexeu as pernas, depois os braços, sempre com medo de que os seus membros não respondessem, mas seu temor acabou não fazendo sentido.
Levantou e percebeu-se bem. Um pouco dolorido, mas bem e começou a dançar.
Sim, como nos filmes em que o mocinho se da bem e uma música animada começa a tocar ele começou a dançar no canto da estrada do lado de sua Harley jogada sobre um alto gramado quando um carro passou e um senhor o olhou.
Sentiu-se ridículo... Não devia ter feito aquilo.
Levantou a moto e pensou em pra onde ir agora e só uma resposta veio a cabeça: para a minha casa e para minha mulher.
Tinha descoberto um sentido, uma resposta: Em cada quilometro rodado, no papo com a moça do bar, na tristeza do músico apaixonado, na sua queda e em sua quase morte...
Agora ele podia olhar a própria esposa nos lhos e dizer: Eu te amo.

“Foi como ver o sol... Nada que aconteça irá abalar a energia que deixou pra trás. Nada irá abalar. Nada irá.”

Cyius – Dois Sóis

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