À minha segunda-feira














Construir não é fácil.
Uma porcentagem ínfima da população mundial tem o dom de construir carros, casas, estádios, cidades... Enfim, e uma menor ainda tem esse dom para construir com lego.
O monte de peças coloridas era a especialidade de Radamés desde que era criança. O menino fazia inveja nos colegas com seus projetos arquitetônicos gigantes e bastante coloridos.
Destacava-se em matérias como matemática na escola e isso o ajudou a tornar a sua pequena cidade de lego conhecida primeiro em casa, depois entre os amigos até que sua fama finalmente se estendeu por todo o bairro.

Isso mesmo: toooodo o bairro

Adorava perder horas naquela brincadeira estafante para alguns, mas extremamente prazerosa para ele. Gostava de chamar a cidade, de pouco mais de três metros quadrados, de Radamés Land. Uma pequena referência a Never Land de Peter Pan que era um de seus livros preferidos.
Certa vez quando o seu império cheio de cores já tinha atingido certa fama recebeu Fabiana, uma colega de escola em casa e brincaram durante toda à tarde até que ele resolveu mostrar a ela a sua maior obra prima.
Deu certo: Fabiana realmente ficou impressionada, perguntou muitas coisas, ficou estarrecida com outras respostas e fez um pedido.

-Radamés?
-Sim Fabi?
-Será que eu poso fazer uma contribuição para sua cidade?
-Claro, o que você quer fazer, uma casa, um carro, um avião, um...
-Não
-O que então?
-Quero fazer um único pilar e te peço que construa algo a partir dele

Radamés achou a proposta meio estranha, mas aceitou.

Quem em sã consciência negaria algo a ela?!

Fabiana colocou seu pilar que media pouco mais de dez centímetros e logo depois foi embora quando a mãe da moça chegou buzinando do carro e chamando-a para ir jantar.
Acenando para a família de Radamés num simpático sinal a garota e a mãe se despediram.
Radamés passou todas as suas manhãs, tardes, noites e madrugadas daquele final de semana buscando construir algo a partir do pilar que Fabiana tinha feito, tentando bolar as coisas mais incríveis possíveis para impressioná-la, mas nada saia de sua cabeça.
Rodava em volta da cidade e do pilar, feito de lego, como se estivesse numa brincadeira de dança das cadeiras e nada.

O maior gênio de lego do bairro estava em crise por causa de uma garota

Relutou, não se entregava, pensou mais uma vez e nada, pensou mais duas, três, quatro...
Era mais que um pilar de lego. Simbolizava o único desafio no lego que não foi capaz de superar, simbolizava, talvez, que não fosse mais o melhor do bairro nem o dono permanente da atenção de Fabiana em definitivo.
Foi para a cozinha triste, sentou na cadeira é só encontrou consolo num copo gelado de refrigerante com o biscoito que sua mãe havia comprado recentemente.
Disse para si mesmo enquanto a segunda, as aulas e o novo encontro com Fabi não chegava:

-Pelo menos hoje vou encher a cara de glicose

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